A Caixa de Pandora

Andamos tão distraídos com coisas sé- rias que ninguém está a dar a devi- da atenção ao julgamento do pirata informático português Rui Pinto. Vale mui- to a pena acompanhar o que do nosso mais famoso hacker digital de língua portuguesa.

O caso mete toneladas de segredos, disputas e espionagem entre países estrangeiros e clubes de futebol, sogras carinhosas e balneários húngaros. Uma verdadeira babel de acontecimentos extraordinário que, fossem eles noutros tempos da imprensa, com Eças de Queiroz e Ramalhos Ortigões, que tínhamos aqui pano para compridas mangas, tinta para inúmeros folhetins e benzina para grandes nódoas.

O caso da pirataria foi descoberto quando uns emails sobre alegado favorecimento dos árbitros, trocados entre juízes, dirigentes de um clube de Lis- boa chamado Benfica, quando o “bom” pirata Rui inventou um movimento — o Futebol Le- aks — que expôs publicamente a alegada a pouca vergonha com a ajuda de um dirigente de um clube do Porto chamado FC. Mas à medida a que se vão sabendo coisas percebe-se que a trama é muito mais grave que uns Vieiras a comprar árbitros ou uns Pintos da Costa a queixar-se disso. Ela tem a ver com a forma como o estado português não liga patavina à segurança das suas informações.

O inspetor senhor Amador da Polícia Judiciária pula garantia ao tribunal em Lisboa que a Procuradoria Geral da República portuguesa só soube pela Polícia Judiciária que os seus servidores informáticos tinham — em 2018 — sido atacados. Dois anos com o gatuno dentro de casa sem ninguém dar conta. Quer isto dizer, contrariamente a toda a prudência, cautela e caldos de galinha, a PGR lusita- na continua a não acreditar que investir na segurança das suas informações é assunto que mereça encómios e panegíricos.

Uma atitude que aliás vem de longe, pelo menos desde que o telefone do antigo procurador Cunha Rodrigues, quase nem havia telemóveis, fazia estalinhos debaixo do soalho, ainda haviam de faltar 10 anos para o Euro 2004. As conclusões a tirar das declarações do inspetor José Amador são mais ou menos graves consoante o nível de informação que o leitor tenha sobre assuntos de segurança. Para ajudar eu posso assegurar que o diferencial de dano entre a escuta que em 1994 ficou “esquecida” debaixo do chão da rua da Escola Politécnica e os 12 discos 23 terabytes onde Rui Pinto guardava a informação de mais de 150 contas de email em 2020, é incalculável. José a Amador chamou-lhe Caixa de Pandora. Eu fui à enciclopédia ver o que essa caixa quer dizer.

POR: José Manuel  Diogo

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