O estranho desaparecimento de Tanjana

Há histórias que desafiam a compreensão, que arrepiam, como esta. A história do estranho desaparecimento de Alvarito, mais conhecido como Tanjana, ainda arrepia a espinha de quem a ouviu ou vivenciou em 1985 em Mbanza-a-Kongo. Obviamente, pode-se perguntar, e com toda a legitimidade, como pode um ser humano desaparecer na natureza, sem estar morto nem ser enterrado, por ter confiado em alguém; um colega de trabalho, que tinha tudo de um amigo, mas quem no fundo era um diabo invejoso que ia vender a sua alma à pena eterna, à errância? É verdade que nessa altura a guerra civil tinha atingido o seu ápice na região e que continuávamos a dizer que a UNITA tinha novamente atacado tal e tal lugar ou mais outra coluna, na Serra de Canda ou no N’Zeto, por exemplo. Então, também se podia concluir que o Tanjana tinha sido capturado pelo “inimigo”, uma vez que acabava de ser promovido a Aspirante na Segurança do Estado, após um curso de contra-inteligência no Huambo, e colocado no departamento de selecção de quadros quando regressou à sua terra, onde tinha amigos e até uma namorada. Mas não, nada disso. É até o oposto de tudo isso. O desaparecimento de Tanjana é o mais sofisticado, infame e abominável truque de magia negra que seja. Pois, um homem vil e ambicioso chamado Guerra, de uma família local com uma reputação sinistra, veio convidar o Tanjana para ir com ele visitar o seu avô que vivia em Nkondo, um pequeno vilarejo localizado a cerca de 15 km de Mbanza-a-Kongo, “para ir beber um bom malavu-ma-sam- ba”, tinha acrescentado. Seduzi- do pela ideia, o Tanjana sucumbiu à tentação e aceitou o convite. E ao deixarem a cidade, na manhã desse sábado, cumprimentaram no caminho três amigos e colegas da mesma corporação militar, Samy, Manuel “Tarak” e Maurício “Morró”, que estavam a decorar a sua nova garçonnière, que mais tarde se tornou o famoso ponto de encontro da juventude local sob o nome de Bunker. Conversaram rapidamente e de- pois seguiram o seu caminho, a pé, até Nkondo. Ao chegarem na casa do avô do Guerra, que os saudou com insuspeita simpatia e que lhes ofereceu os seus bancos para se sentarem, o velho colocou, depois de poucos minutos de conversa, um grão de cor escura na mão do neto, sob o olhar confuso do Tanjana; que terá tempo, no seu regresso, para expressar o seu espanto aos amigos antes de desaparecer para sempre no dia seguinte. Nunca saberemos se beberam mesmo esse bom vinho de palma, mas saíram de Nkondo por volta das 14h00. Por outro lado, saberemos, sempre pela própria boca do Tanjana, que esta escapadela foi muito insólita. Na verdade, quando voltaram, passaram pelo Bunker novamente. Mas o Guerra não ficou muito tempo com os outros na garçon- nière e o Tanjana aproveitou para contar aos amigos, com quem havia crescido, o que viu e ouviu do avô do outro, pois não sabia que era um nefasto nganga. Aparentemente, no meio da conversa, chegou até a dizer o seguinte ao neto: “és militar, mas não deves matar ninguém!”, palavras vãs e contraditórias quando soubermos o que ele realmente fez. No dia seguinte, domingo, a equipa de juniores do Estrela do Kongo, da qual o Tanjana era capitão, tinha um jogo marcado e os jogadores tinham encontro na sua casa às 8h. Todos apareceram, excepto ele, e a porta do anexo onde morava estava aberta. Mas a partida foi jogada, embora tenha sido interrompida posteriormente porque um rapaz enviado pelo tio do Tanjana, com quem vivia, veio buscá-los a seu pedido, havia um problema. Então todos correram para a sua casa. O tio Luvissa disse-lhes que vira o Tanjana sair de farda pela manhã, com a AK nas costas e a pistola no coldre da cintura, e que achava anormal que não estivesse com eles porque também não estava no quartel. “Para onde foi, depois de passar a noite no seu quarto com a sua namorada Belita ?”, perguntou o tio. Os amigos não ficaram alarmados de imediato, até segunda-feira, no quartel, quando o chefe, o Dele- gado provincial, lhes disse para irem procurar o amigo por todos os meios. Avisaram a família dessa ordem e foi aí que começou o verdadeiro pânico e a notícia se espalhou pela cidade. À noite, uma respeitável senhora do bairro foi até a casa da família do Tanjana para dizer que ela acabara de passar por ele quando voltava da lavra. Que ele se dirigia para o rio Lueji e que até lhe teria perguntado se ainda havia mulheres por lá porque queria lá ir to- mar banho, o que é uma pergunta muito sensata, visto que mulheres e homens não tomam banho no mesmo lugar na cultura local. Os três amigos, nesse momento acompanhados por mais dois, Armando “Sanguito” e Ambrósio “Bozo”, todos comandos que integraram a Segurança, que se apegavam ao Tanjana por amizade e que deviam seguir as ordens  * do seu chefe, correram, com alguns rapazes do bairro, para os arredores do Lueji, pelas florestas e montanhas para procurar o amigo. Em vão. Gritaram o seu nome em todos os lugares. Nada. Tanjana evaporou. Na quarta-feira, outra família veio dizer que encontrou vestígios de calça- dos militares na sua lavra e cascas de mandioca e jinguba de alguém que as havia comido ali. Desta vez, um grupo maior de soldados foi lá procurar. Em vão. Foi nesse momento que o Morró se lembrou do que tinha dito o Tanjana no Bunker, quando regressou de Nkondo com o Guerra. E os outros também se lembraram, então o Guerra tinha que ser apertado rapidamente! Mas primeiro foram contar à família do Tanjana sobre isso, e esta ficou mais preocupada quando descobriu de que família era o Guerra. Guiados pela sabedoria ancestral, os anciãos da família ordenaram não o torturar e convocaram uma assembleia solene de sábios com as duas famílias. Mesmo assim, os militares decidiram ir prender o Guerra, que passou um tempo na cela das Operações, antes de irem arrancar o seu avô da cama para o forçar a vir participar na reunião de confrontação. E foi aí que o ve- lho contou tudo. Disse que o seu neto Guerra tinha ido vê-lo antecipadamente para lhe dizer que queria ter uma patente superior todos os anos e que o tinha avisa- do, ele, o velho, das consequências desse desejo. Que até lhe teria dito que para isso era preciso sangue humano, que o Guerra teria respondido que não havia problema, que estava pronto para tu- do e que seria o da pessoa que lhe iria trazer. Depois do velho dizer essas palavras assustadoras para a assembleia, que estava reunida na casa do Velho Costa, virou-se para o neto e disse: “Onde está o fio que te dei ?”, E este respondeu:” Joguei-o na latrina, como me instruíste! “ Naquele momento, os punhos ergueram- se na direcção do Guerra e gritos clamavam “É ele!”. Mas os sábios rapidamente apaziguavam o ambiente, queriam acima de tudo salvar o Tanjana. “Impossível!”, berrou o velho curandeiro, “não se pode mais recuperar! Já está muito longe, no reino dos mortos! “, acrescentou revirando- os olhos. Na verdade, o Guerra já havia começado o seu trabalho muito antes de convidar o Tanjana para o Nkondo. Orientado pelo avô, pediu um dia ao Tanjana que lhe emprestasse o seu uniforme, que mais tarde lhe devolveu sem o usar, mas já trabalhado pelo seu avô. E este, depois de dar-lhe um fio adornado com três balas de uma pistola, que devia atirar nu- ma latrina, exigiu a presença física do sacrificado para completar a sua façanha. E se o Tanjana tinha voltado vivo de Nkondo, sem o seu espírito, obviamente, foi só para ir vestir a farda que o Guerra tinha feito enfeitiçar pelo seu avô. É por isso que o Tanjana desapareceu no dia seguinte, domingo, 12 de maio de 1985. Essa história traumatizou a cidade de Mbanza-a-Kongo, to- da a sua juventude, até hoje. Os Kotas Morró, que é meu primo, Sanguito, Daniel Mvombo e Nito, meu irmão, ainda falam sobre isso com muita emoção. Mui- tos jovens, agora na casa dos cinquenta anos, deixaram a cidade imediatamente após esse acontecimento e amizades foram rompidas. Ainda existe um profundo sentimento de impotência, terror, repulsa e injustiça. Como o Estado não podia julgar o caso, o Guerra foi transferido para Luanda, apenas para ser expulso do exército. Hoje dizem que é pastor na capital. Desejo paz à alma do Kota Tanjana.

POR: RIicardo Vita

leave a reply

O Pais

Deve ver notícias