Vivências

Por: KÂMIA MADeIRA

Malaquias passou parte da sua vida no estrangeiro pois tinha ido concluir os seus estudos, teve vários relacionamentos mas optou por uma ex-colega de escola, bolseira assim como ele, quando refl ecte atribui a sua escolha ao receio do estigma pois uma mulher que conhece os nossos costumes não complica tanto… Enquanto viveram fora tudo corria bem, casal jovem e sem fi lhos dividiam as tarefas do lar e partilhavam as contas, sendo a harmonia uma constante. Quando terminaram as respectivas formações e pós graduações sentiram que era tempo de regressar e avisaram as famílias, contudo não era do conhecimento que já coabitavam e muito menos que faziam vida de casal…

A sua companheira apreensiva, divagava sobre como contar aos pais, pois sabia que o passo a seguir era cumprir com os rituais, apresentação, pedido e toda a preparação para o casamento. A Malaquias soaram os primeiros sinais de alarme a vida pacata e harmoniosa poderia estar em perigo? Regressaram à terra natal e o prazer de estar entre os seus invadiu-os, já não seriam dissimuladamente perseguidos em lojas por seguranças, não teriam que ver expressões de enfado nos transportes públicos, pois o único lugar disponível era ao seu lado ou teriam que suportar questionamentos sobre as suas capacidades cognitivas por terem tirado notas superiores aos seus colegas.

O regresso à pátria amada avizinhava-se auspicioso, pelo menos assim o imaginavam. As familias puxaram uns cordelinhos e pediram uns favores e os jovens “retornados” conseguiram emprego em boas empresas, com muito sangue na guelra não acharam estranho que os colegas os olhassem com despeito e os apelidassem de contratação relâmpago de QI (Quem Indica) pois na altura queriam apenas  provar que eram competentes mas não se incomodaram de que sem experiência de trabalho efectiva ficassem a coordenar equipas com pessoas com conhecimento válido e que tinham o que muitos teimam em ignorar, cultura organizacional, pois quando se chega a uma empresa dizem os entendidos que os primeiros tempos devem ser gastos a entender as dinâmicas que a movimentam…. Logo, por diversas vezes lamentavam o infortúnio de não serem compreendidos e de os colegas terem inveja de si.

O casal QI fez a apresentação e o pedido e tratava dos preparativos para o casamento quando a companheira de Malaquias o notou diferente, entre várias reuniões e inúmeros compromissos o noivo pouco tempo tinha para conversar ou mesmo partilhar o seu dia, contudo o seu instagram estava cheio de fotos de eventos assim como de frases motivacionais de como ser empreendedor de sucesso, sendo a sua preferida uma atribuida ao rapper 50 Cent “ torna-te rico ou morre tentando…” o outrora pacato namorado era agora um dandy da mais alta estirpe luandense vivendo para mostrar a sua classe.

Para Malaquias a noiva tornara-se entediante, já não suportava ouvi-la falar dos desafi os das mesas de refeição decoradas mais originais, ou de como a palavra humilde tinha virado sinónimo de algo bonito mas de que não se deve vangloriar … Era uma mulher inteligente que conversava sobre economia e política, mas que, confessara-lhe, sentia-se estigmatizada pois supostamente as licenciadas não sabem cozinhar nem cuidar da casa… Foram descobrindo paulatinamente e a seu ritmo que o desejado regresso nem sempre é simples e linear, que as expectativas dos que nos rodeiam podem moldar a nossa perspectiva, sendo que na maior parte das vezes assumir a nossa individualidade é sem dúvida o melhor caminho mas nem sempre o mais fácil.

Provavelmente o leitor esperaria que lhe contasse como correu o casamento e que vida tiveram enquanto casal, o que lhe parece? Será que a realidade moldou-os ou conseguiram harmonizar o que tinham construído no início do relacionamento? Às vezes as vivências podem ser transformadoras…

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