Os ladrões da nossa esperança!

O jantar já ia a meio, quando iniciou o telejornal, remetendo-nos para uma pausa momentânea diante da urgência de se actualizar as notícias sobre o mundo que se apresenta a cada amanhecer mais vulnerável, ambíguo e incerto. Aliás, o tal “Mundo Líquido porque, como todos os líquidos, ele jamais se imobiliza nem conserva sua forma por muito tempo”, como escreveu o sociólogo polaco Zygmunt Bauman falecido em 2017. – O que é peculato, papá? A filha rompeu o silêncio imposto pela televisão. Flagrado pela surpresa, dilui no sumo de limão a inquietação e refugiei o olhar nas imagens da tela, onde um importante empresário angolano era acusado da prática de vários crimes entre quais o de peculato e branqueamento de capitais. São milhões e bilhões algures! As imagens quase diárias, que retratam o complexo processo de combate à corrupção, formam um enorme novelo com vários capítulos e protagonistas.

Nem sei por quê, mas sempre que ouço algo sobre o combate à corrupção, meu pensamento escala no “Processo 105”, que investigou e julgou crimes de tráfico ilícito de diamantes em Angola. Ainda vejo o Presidente do Tribunal Popular Revolucionário, Adolfo João Pedro, o então Procurador do Tribunal Popular Revolucionário da Província de Luanda, Simeão Adão Manuel “Kafuxi” e o jurista Manuel Rui Monteiro. O julgamento, realizado em 1985, “Ano do II Congresso do MPLA-PT” que gizou o SEF (Saneamento Económico Financeiro), marcou uma grande atracção na grelha do único canal de TV, a Televisão Popular de Angola. Depois do julgamento dos mercenários, em 1976, angariados para assaltar Luanda na véspera da independência, era o segundo mais mediático. Recorde-se que, nessa altura, era exibida a telenovela da TV Globo, Roque Santeiro, que deixou entre nós um rasto de viúvas porcinas, senhôzinhos maltas, roques santeiros, zés das medalhas, beatus salus, vários lobisomens e navalhadas! E quantos! -Papá, ainda não me disse o que é peculato!… – Peculato é um crime que ocorre quando um funcionário desvia um bem que não lhe pertence. – Papá, dê um exemplo! – Imagine alguém que se aproprie indevidamente do carro da empresa em que trabalha! -Não é gatuno, papá? – São irmãos gêmeos! São Siameses, é isso aí! – Então é gatuno! Sorriram descontraídos.

Enquanto isso, eu voava em direcção a aldeia, onde certo dia do mês de Maio de 1974, ao regressar da escola, encontrei dois homens jogados no chão empoeirado do terreiro. Com os braços amarrados atrás das costas, gemiam de muita dor. Ainda tinham a cabeça presa, na altura das têmporas, por duas hastes de madeira atadas nos extremos. Na língua local chama-se “golungo”. Eram considerados gatunos, por terem furtado duas galinhas, um pato e um garrafão de óleo de dendê. Era a primeira vez que via um gatuno. Dizem ser irmão do feiticeiro, porque ambos se apropriavam de bens alheios e, inclusive, eram capazes de tirar a vida aos legítimos proprietários. Eles tinham os pés descalços, cheio de bitacaias(bichos do pé) e sujos. Usavam roupa também suja. No auge da dor, depois de beberem água com sofreguidão, confessaram o crime. A sentença aplicada foi a devolução dos mesmos acrescidos de uma galinha e um garrafão de aguardente de banana, por abuso e atrevimento. O tempo passou, mas o episódio e suas lições prevalecem. Os ladrões de ontem rotos e esfarrapados diferem em muito dos de hoje que são bem vestidos, nutridos e perfumados. Estes não roubam ninharias como aqueles, roubam a alma, a fé e a esperança de milhões de angolanos. Estes são muito mais perigosos que aqueles! *Mestre em Comunicação

POR: Augusto Alfredo

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