Televisão e o poder suave na construção da identidade (ii)

Por: Augusto Alfredo

Os elementos da cultura de um país, os valores políticos e a legitimidade da sua política externa, segundo o professor americano de Harvard Joseph Nye, constituem a fonte Soft Power, capaz de atrair a simpatia de outros povos. A música, a dança, a escultura, a literatura e todas as manifestações culturais e artísticas representam a primeira fonte do exercício da hegemonia na relação entre povos e países.

Neste grupo, podemos incluir outros elementos que podem ditar a hegemonia de um país. Por exemplo, referindo-se ao Soft Power da China no continente africano, o professor brasileiro de Relações Internacionais, Williams Gonçalves, diz que “a China tem sido muito eficiente no uso do seu Soft Power” (GONÇALVES, 2010, p.533). E, a seguir, descreve as várias acções levadas a cabo pelo Governo da República Popular da China para o fortalecimento das suas relações com os africanos: As universidades chinesas têm acolhido estudantes africanos em larga escala, assim como os chineses tem sido muito activos na formação de técnicos africanos.

Além disso, os chineses têm espalhado “Institutos Confúcio” pelo continente africano, promovendo o conhecimento da sua cultura e ensinando a língua chinesa. Levando-se em conta a grande presença permanente de chineses e a necessidade sentida pelos comerciantes africanos de se adaptarem aos hábitos e costumes dos chineses para aumentarem as suas vendas, é possível dizer que tem havido grande influência cultural da China no continente em geral (GONÇALVES, 2010, p.533). Já no segundo escalão, posiciona-se o respeito aos direitos humanos plasmados na Carta Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas.

A exaltação e a defesa do direito à vida, a equidade na distribuição das oportunidades e de acesso aos bens representam sempre um motivo de atracção e sedução do outro no contexto das relações internacionais. Finalmente, a legitimidade da sua política externa avaliando com isenção e equidistância e posicionando-se de forma coerente e justa em disputas que envolvam estados nacionais constitui um chamariz para novas alianças em torno de si e da sua causa.

A produção audiovisual enquadra-se, assim, no primeiro escalão das fontes do Soft Power encerrando um poder incomensurável, sendo capaz de paralisar um país inteiro para assistir o desfecho de uma telenovela. Por exemplo, nesse quesito, as telenovelas brasileiras têm sido bemsucedidas em vários países mesmo aqueles cuja cultura e língua, à priori, são tidas como bem diferentes da do Brasil. Cenas da telenovela brasileira apaixonam e emocionam o público que se identifica vendo neles eventos da sua quotidianidade. O êxito de exportações de telenovelas gerou impactos culturais e sociais imensos no mundo inteiro, prova cabal de seu poder suave em nível Global. A novela Escrava Isaura, por exemplo, foi vista por 450 milhões de chineses. A atriz uruguaia Natalia Oreiro é considerada uma das mulheres mais admiradas na Rússia e, em Israel, por conta de suas novelas. O maior mercado de rua que Luanda (Angola) já teve chama-se Roque Santeiro por conta do sucesso da novela brasileira no país (BALLERINI, 2017, p. 09).

(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO) *Mestre em Comunicação

leave a reply

error: Conteúdo Protegido!