Televisão e o poder suave na construção da identidade (Conclusão)

Se olharmos para o volume ascendente da cooperação alcançada entre Angola e o Brasil, facilmente poderemos apreender a importância e o poder de influência que a produção audiovisual do Brasil teve e tem na promoção da imagem e da cooperação entre os dois países. E o professor e pesquisador de assuntos relacionados à África, Pio Penna Filho, reconhece a performance do audiovisual no melhoramento desse relacionamento: “Nossos meios de comunicação têm importância fundamental para melhorar isso”. E mais adiante ele explica: Nenhum outro país tem tanta receptividade à cultura brasileira. Inclusive, também em relação ao idioma, há compreensão mútua. Temos tudo para que essas relações se aproximem mais. Nossas músicas chegam a Angola desde a década de 1980. Nossas novelas, também” (FILHO, 2017).

A produção televisiva brasileira foi a expressão mais impactante nos contactos entre os dois povos após o acto de reconhecimento do Governo Angolano pelo Brasil em 1975. Foi através dos produtos da indústria cultural, que a maioria de angolanos tomou conhecimento da realidade cultural do Brasil e por via disso criou empatia com os produtos brasileiros. Basta ver que foi depois das telenovelas, que chegaram as demais empresas, que acabaram incrementando as trocas culturais e comerciais com Angola. Na cultura, como na economia, Angola mantém laços sólidos com o Brasil. Três canais de TV brasileiros (Globo, Record e, mais recentemente, Band) transmitem sua programação no país. A produção audiovisual angolana encabeçada pela Televisão Pública de Angola tem, por seu turno, procurado lançar no mercado produtos de sua criação e exportá-los para os países da CPLP e outros mercados. Por exemplo, as novelas Jukulomessu (Abre Olhos) e Windeck (Subir na vida tem preço), foram transmitidas em Portugal, França, Nigéria, Gana, Costa do Marfim, Canadá, Cabo Verde e Reino Unido.

As duas novelas foram indicadas como melhor telenovela em 2013 no International Emmy Award, classificação obtida igualmente pelas novelas “Avenida Brasil” e “Lado a Lado”, ambas da Rede Globo de Televisão. Jukulomessu e Windeck foram também exibidas pela TV Brasil. Num cenário marcado pela globalização, “a narrativa ficcional televisiva surge como valor estratégico na criação e consolidação de novas identidades culturais compartilhadas, configurando-se como uma narrativa popular sobre a Nação” (LOPES, 2004, p.121). O Soft Power apresenta-se como vontade manifesta de um actor internacional de projectar poder pela via da cultura.

Por isso, num ambiente de convergência mediática, se a nação é um lugar de construção simbólica e de identidades, a apropriação e indigenização dos conteúdos pela audiência de determinado país, pode ser uma via para a participação do Estado-Nacional na construção de uma narrativa universal e transnacional que auxilia a estratégia de afirmação da sua identidade nacional e inserção no mundo. E o exemplo de Angola é bem ilustrativo, pois ao fim de mais de 40 anos de recepção de novelas brasileiras, ela tece sua cosmovisão através da própria narrativa ficcional assente no seu repertório cultural e identitário. Portanto, as narrativas audiovisuais, estruturadas a partir da história, geografia, biologia e das instituições produtivas e reprodutivas constituem factor fundamental na produção imaterial das sociedades contemporaneias hoje interligadas em rede, onde o expectador tradicional graças ao desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação foi convertido simultaneamente em novo ente, o “prossumidor”, ou seja produtor e consumidor simultaneamente.

Portanto, como podemos observar, Mcluhan defendia nos longínquos anos da década de 1960 a necessidade de um maior envolvimento e participação da audiência na produção narrativa, facto tornado hoje realidade graças ao advento das novas tecnologias e das plataformas digitais. As narrativas transmidiáticas constituem uma ruptura de velhos paradigmas que convertiam a audiência em consumir passivo convertendo-o em protagonista na construção da realidade quotidiana através da produção de conteúdos que são divulgados a partir das mais variadas plataformas hoje existentes. A frequente conflitualidade entre os usuários das redes sociais e os poderes públicos e os proprietários dos meios de comunicação de massa expressam a profundidade dessa mudança de paradigmas. Pois, como defende Paula Sibilia, “Aos poucos, nossas narrativas vitais foram abandonando as páginas dos romances clássicos e dos folhetins… Para explorar novos espelhos identitários. As informações então migrando para o universo digital onde o ver e o ouvido monopolizam as pesquisas na eliminação das distâncias e das fronteiras que separam indivíduos, povos e nações inteiras. Mestre em Comunicação

POR: Augusto Alfredo

leave a reply

error: Conteúdo Protegido!