É de hoje…Era para ser diferente…

H á 45 anos, num dia como este, Agostinho Neto proclamava perante à África e ao mundo a Independência de Angola. Era o prenúncio de um país novo em que o homem igualmente novo, cinco séculos depois de uma dominação colonial, cujos resquícios, até aos dias de hoje, ainda são evidentes. Para trás ficava um período de sevícias várias em que o domínio colonial era por demais evidente, transformando os angolanos em meros inquilinos num território a que tinham direito, mas viam as riquezas espoliadas para a metrópole, permitindo ao desenvolvimento qualitativo e quantitativo do opressor.

Para frente, os anos também foram de incertezas. Desde um acordo mal resolvido entre irmãos que degenerou em quatro décadas de conflito armado, sendo as desavenças que se seguiram às eleições de 1992 as mais mortíferas. Nem mesmo os vários acordos de mediação, muitos dos quais com a participação da comunidade internacional, permitiram que irmãos desavindos se reencontrassem. Hoje, 45 anos depois, algumas feridas continuam visíveis. Não são só as provocadas pelo colonialismo, mas sobretudo por um período negro em que o público era visto como privado, os consensos desapareceram e o pôr-dosol era um privilégio para uns poucos.

Como explicou ontem, na Cidade Alta, o Presidente da República, João Lourenço, ‘infelizmente, os anos que se seguiram não foram aquilo com que os angolanos sonharam, que seria o de edificar um país desenvolvido onde os angolanos pudessem beneficiar das amplas riquezas que a Natureza nos oferece e recuperar a dignidade merecida, como seres humanos de um país livre’. Era para ser diferente. O país tinha tudo para ser de todos, independentemente da raça, credo ou da filiação política.

Tal como garantiu o Presidente, ‘o país enfrentou sérios desafios à sua própria existência mas soube sempre superá-los, porque se apoiou na força do seu povo, mas também alcançou grandes conquistas que temos a obrigação de as preservar e consolidar’. Não há dúvidas de que a “Independência e Soberania nacional são conquistas sagradas e inalienáveis”, como sublinhou o Presidente o “Estado Democrático e de Direito, a economia de mercado, a paz duramente alcançada e a reconciliação nacional, a emancipação da mulher, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião e de manifestação, a liberdade de culto, são realidades e direitos fundamentais já adquiridos que devemos todos respeitar e proteger”. Mas é preciso que cada um faça a sua parte, para que tenhamos um país diferente em que todos se possam rever. Tal como se vaticinou há 45 anos. Era para ser diferente…