Ataques contra luanda na véspera do 11 de novembro de 1975

Ataques contra luanda na véspera do 11 de novembro de 1975

A morte do senhor Amaral Gourgel, antigo funcionário da fazenda Boa Entrada-CADA, abriu para a curiosidade da aldeia do Pange-Amboim, as portas da sua rica biblioteca. Foi assim que, entre os achados, levei para casa o livro “Sangue no Capim”, de Reis Ventura. O autor narrava as peripécias por que passaram as famílias lusas atingidas pela violência e as acções do Exército e da Força Aérea Portuguesa contra a guerrilha da UPA, na sequência dos acontecimentos do 15 de Março de 1961. Li com o coração apertado os relatos da violência e as imagens de gente assassinada pela guerrilha e pelos portugueses. Ia a meio da leitura, quando ao voltar a casa encontrei a prateleira vazia. Minha mãe havia enterrado todos os livros no meio do capim, tudo devido a presença de polícias e sipaios que haviam vasculhado toda as casas da aldeia.

Nunca mais me esqueci daquele livro, até chegar o 25 de Abril de 1974. Era um novo tempo! Aplaudimos a chegada dos “legítimos representantes do povo angolano”. Mas a dose da intolerância e exclusão mútuas, ainda remanescente entre os três movimentos de libertação, agudizou as contradições e fez deflagrar mais uma nova guerra, a das cidades. No terreno, os exércitos registam avanços e recuos. A propaganda é a arma da vitória. Os rumores e boatos elevam o índice de incerteza da população. A guerra internacionaliza-se e os vizinhos do Norte e do Sul entram na contenda: Cada um queria ter Luanda para si a 11 de Novembro. Em Cabinda, segundo conta o General Pedro Benga Lima “Foquetão” no seu livro “Percursos Espinhosos(Memórias)”, – Emface da situação, todos os efectivos das FAPLA(Forças Armadas Populares de Libertação de Angola-MPLA) tiveram que se engajar na preparação da defesa para que fosse intransponível em todas as direcções previamente definidas, com maior incidência na direcção Nto-cidade de Cabinda e nas direcções Chimbuandy-Nsusu-Subantando e Chingundo-ChapaSubantando.

Enquanto ocorria essa situação, chegou a Cabinda o primeiro contigente de tropas cubanas. Com a chegada destas, começou-se a trabalhar rapidamente com os efectivos das FAPLA, com vista à sua transformação num verdadeiro exército, dotando-o de conhecimentos conveccionais e do domínio correcto da técnica e do armamento nos moldes da guerra regular… Na direcção Chingundo-Chapa-Subantando, o inimigo começou o avanço no dia 5 de Novembro de 1975. Atingiu a nossa defesa nesse mesmo dia no período da tarde; a nossa tropa procedeu conforme as orientações superiores abrindo fogo com todas as armas ligeiras e pesadas…

Nesse dia, a escassos metros, foi utilizado esse armamento contra a infantaria inimiga. Como resultado, o inimigo conheceu a sua prmeira derrota nessa operação, tendo recuado em debandada, deixando no terreno vários mortos e armas. O jipe das transmissões, seu posto de comando, também foi abandonado. … Finalmente nos dias sete e oito de Novembro, a nossa defesa foi alvo de várias preparações da artilheiria inimiga e de outros meios com vista a destruir alguns dos nossos meios, armamento e técnica, bem como criar desgaste psicológico nos efectivos das FAPLA e FAR(Forças Armadas Revolucionárias-Cuba)… – No dia nove de Novembro pela manhã, muito cedo, começaram o avanço terrestre desdobrados em colunas de pelotão, munidos de alguns veículos blindados e viaturas de transporte de tropas. Quando atingiram uma distância de dois a três quilómetros do nosso bordo dianteiro, iniciaram o ataque com armas ligeiras e metralhadoras pesadas. A nossa tropa, durante tais ataques manteve-se nos refúgios deixando-os aproximar-se cada vez mais do nosso dispositivo.

Assim aconteceu: quando atingiram a distância de trinta a cinquenta metros, as nossas tropas saíram dos refúgios, tomaram as posições e abriram fogo com todos os meios à nossa disposição. Deste modo, o exército zairense somou mais uma derrota… dr (LIMA, 2007, p.184-187)… – Em Agosto de 1975, forças sul-africanas desenvolveram acções de bombardeamento contra as posições da SWAPO, que lutava pela independência da Namíbia a partir da província do Cunene. Mais tarde, atravessam a fronteira e ocuparam a barragem de Ruacaná assim como demais zonas estratégicas ao longo do rio Cunene, alegando garantir segurança daquele projecto estratégico contra as acções da SWAPO. No dia 22 de Outubro, e com aval político de Washington, da Zâmbia e do ex-Zaire, colunas militares sul-africanas atravessaram a fronteira sul de Angola, com o objectivo expresso de intervir directamente no conflito angolano… Duas semanas depois, a intervenção sul africana tinha permitido a retomada das cidades de Moçamedes(Namibe) Sá da Bandeira(Lubango), Benguela, Lobito e Novo Redondo(Sumbe)”, narra, por seu turno Jardo Muekalia no livro intitulado “Angola.

A Segunda Revolução. Memórias da luta pela Democracia” (MUEKALIA, 4ª ed., 2013, p.37). – Nós nessa altura, lembra o General Mbeto Traça, na altura delegado do MPLA no Cuanza Sul, no Sumbe ainda fizemos um travão na ponte. Dissemos, passam velhos, as mulheres e as crianças. Todo o angolano em idade de combater fica aqui, porque nós vamos ficar para fazer face ao inimigo. O MPLA passou o 11 de Novembro no Sumbe… No dia 13, é que me encontro com o Comandante Cassange a vir… Quando começam a descer o morro do Chingo a pé, os sul-africanos atacam. É aí que morre o Cassange, dia 13… Durante o dia, Cassange não voltou e partimos a ponte, à tarde. Nesse seu depoimento, contido no livro “Memórias Precoces- Luanda Gabela, uma viagem de 30 anos” (ALFREDO, 2007, p.110-111), o General conta, igualmente, os combates travados na direcção do Ebo e Cela, bem como as circunstâncias que envolveram a morte do Comandante cubano Raul dias Arguelles em Dezembro de 1975.

No dia 6 de Novembro de 1975, à noite, com chuva míuda, chegou em nossa casa no Pange um grupo de adultos e crianças com sacos e trouxas à cabeça. Logo destingui do grupo o rosto da avó Lemba, a mulata nascida na Quissama-Bengo, mãe do meu pai. Ela trazia uma enorme cabaça amarrada às costas! A casa tornou-se pequena para os acolher, mas o amor deu sempre um jeito. Na aldeia, a maioria dos jovens ingressou nas FAPLA no CIR da fazenda do Pange e da Boa Altura e partiu para frente de combate. Na espera do desfecho imprevisível, a aldeia ficou vazia e angustiadamente silenciosa!… E até ao dia 11 de Novembro, fomos acompanhando apavorados os bombardeiamentos quase diários do exército sulafricano, que nas Cachoeiras da Binga, na Gonga, estrada de Porto-Amboim, quer nas Seis pontes da Conda, quer na Cela e Ebo, procuravam romper a defesa das FAPLA. Na direcção de Kifangondo, conforme depoimento do jornalista brasileiro Fernando Luís Cascudo, que esteve ao lado da FNLA, apresentado no livro “Angola.

A guerra dos traídos” (CASCUDO, 1979, p.121-123) – Nos dias 2 e 3 de Novembro, foram desfechados dois ataques-relâmpagos, os quais foram acompanhados directamente pelo Presidente Holden Roberto e pelo General Mamine, além do comandante Tonta e demais comandantes do ELNA, contra Kifangondo. As tropas expulsaram algumas patrulhas avançadas das FAPLA que se encontravam nas imdediações do Panguila e prosseguiram vitoriosamente até a segunda ponte de acesso a Kifangondo. A grande preocupação era justamente esta ponte sobre o rio Onzo. Numa coluna blindada… com tropas especiais estavam de facto duas panhairds, uma de 90mm e outra de 60 mm e uma VTT transportadora de tropas. Os oito restantes carros de reconhecimento leves estavam com guarnições treinadas no Kinkuso, muitas das quais somente sabiam falar o idioma lingala. Naquela última semana, dois canhões de 130mm modelo soviético, haviam chegado do Norte para romper a barreira do Kifangondo.

Suas guarnições, porém, não tinham experiência de combate no manuseio e operação com os gigantescos canhões, desembarcados à noite e camuflados no alto do morro da Cal. Toda estratégia militar do assalto final estava baseada naqueles canhões. Às cinco hora do dia 7 de Novembro, na tentativa de bombardear Luanda a culatra explodiu matando três homens da guarnição e semeando o pânico. A outra peça não podia ser utilizada. – Mesmo assim, sem o menor apoio de artilharia, foi ordenado o ataque. – O presidente segue para Kinshasa, via Ambriz. A luta tem início lá em baixo. Estávamos a uma distância de seis quilómetros, protegidos por rochas, observando, com binóculos, a luta que se desenrolava no Panguila. As tropas do Alves Cardoso sofriam o mais pesado ataque de morteiros, mísseis, canhões sem recuo, metralhadoras e blindados … 8 de Novembro – à tardinha, mais um C-130 aterrava no aeroporto do Ambriz. Do seu interior saíram três obuseiros de 140 mm e respectivas guarnições, munições, geradores de energia, e todo o necessário para fazê-los funcionar. Seguiram, naquela mesma noite, para a frente, no alto do morro da Cal.

9 de Novembro, chovia torrencialmente. Portanto no dia seguinte, à meia noite, o MPLA proclamaria a independência de Angola directamente de Luanda. A última oportunidade para tomar a capital, antes do 11 de Novembro, seria o ataque da manhã seguinte. Às 22 horas foi lançado de avião panfletos sobre a cidade. Dia 10 de Novembro – A luta começara cedo. As primeiras notícias eram trágicas. Dos três carros de reconhecimento dois tinham sido destruídos. Milhares de soldados do ELNA combatiam nas encostas, mas suas armas não atingiam o inimigo, em posição superior, nas cristas do Kifangondo e da Funda… Como toda a gente sabia, as tropas da FNLA estavam agrupadas em três forças, à testa das quais um comandante diferente procurava assegurar uma actuação concertada entre si: o batalhão do ELNA, propriamente dito chefiado pelo Tonta, o batalhão zairense, comandado pelo general Mamine, e o grupo de comandos portugueses, sob a chefia do tenente-coronel Santos e Castro, – sublinha Onofre dos Santos, no seu livro “Os (meus) dias da independência” (SANTOS, 2013, p.21). Era quase um massacre.

O presidente Holden Roberto, que acompanhava no terreno o combate, sentia a impossibilidade de vitória diante daquela desigualdade de armas. Depois do meio dia, começou a retirada. Das cinco da manhã às quatro da tarde, o ELNA suportou o fogo concentrado do inimigo nas mesmas posições (Idem, 1979). Na manhã do dia 10 de Novembro, o alto Comissário Leonel Cardoso reuniu a imprensa angolana e os correspondentes estrangeiros em Luanda, para sua derradeira entrevista. Na noite de 11 de Novembro: – De repente, de todas as partes da colina de Kifangondo, explosões, de todos os tipos, rompem os céus. Armas de vários calibres, mísseis, canhões, metralhadoras, morteiros, canhões de carros de combate, todas começaram a disparar para o alto, num espectáculo pirotécnico incrível e indiscritível(ibidem, 1979, p.130). Quase 20 jornalistas permaneciam no Ambriz, conta o jornalista brasileiro Cascudo, que chegou a Luanda em Fevereiro de 1975, para apoiar a FNLA, contratado pelo empresário António da Mota Veiga Pereira. Os tambores marcam o ritmo alegre das danças regionais.

Às oito da noite, Holden Roberto bebe um sumo de laranja… Depois surge Hendrik Vaal Neto com o discurso para os últinos retoques, feitos sempre pelo próprio presidente.Ambriz era festa, no meio das tristezas. Todos pareciam sorrir para esconder as lágrimas. Mesmo assim, à meia-noite, os fogos de artifícios encheram os céus de luzes, enquanto Holden Roberto proclamava na histórica vila do Ambriz a República de Angola. Por outro lado, a UNITA e a FNLA, em parceria, proclamavam no Huambo a República Democrática de Angola, na ausência dos dois presidente Holden e Savimbi. – Porque no dia 10 de Novembro Savimbi foi recebido em Pretória pelo Primeiro Ministro Voster. Naquele exacto momento em Luanda, Agostinho Neto pelas emissoras de rádio de todo o país, proclamava República Popular de Angola, reconhecida pela Comunidade Internacional, sendo o Brasil o primeiro país a fazê-lo.

No meu Pange humilde, na noite do dia 11 de Novembro, reunimo-nos defronte ao comité do MPLA e entoamos pela primeira vez o Hino “Angola Avante”, enquanto a bandeira era hasteada no mastro de bambu. Nós celebramos a independência, o inimigo de então não conseguiu atingir outra margem do rio Keve, no Cuanza Sul, e no Onzo, em Kifangondo. Passados 45 anos da proclamação da independência, ainda me lembro dos rostos sorridentes de cada um dos jovens militares, que partiu para a frente de combate e da garbosidade do seu andar. Eram o orgulho da aldeia!… Muitos jamais retornaram para jogarmos futebol e tomarmos banho no rio Mazungue!… Vamos semear amor sobre as chagas da guerra e transformar nossa diversidade cultural e política em sinergias para o desenvolvimento do país.

POR: Augusto Alfredo