Bye, Bye, Uncle Jerry!

Sobre ele há muitas coisas escritas. Num país em que o normal não existe, algumas delas poderão passar de simples invenção, sobretudo quando estiver em causa uma figura da dimensão de Jerry Rawlings. Filho de um europeu e uma ganense, Rawlings é o exemplo daquele africano que sabia bem ao que vinha e como esperava ser lembrado caso partisse mais cedo do que o desejado.

Diz-se que nasceu no seio de um grupo tradicional, em que o simples facto de ter uma tez mais clara que os demais fazia dele uma carta fora do baralho nas contas da sucessão, principalmente se estivesse em causa a presidência da República. O ‘velhote’, mesmo que não concordasse, mostrava ser, sempre, um factor de união, andando pela cidade em que nasceu e dirigiu os seus concidadãos.

Amanhã, talvez, encontre um outro momento para escrever sobre ‘Uncle Jerry’, mas, ainda assim, importa relembrar um dia em que em plena Windhoek, ao lado do Eugénio Mateus, vimo-lo chegar a um restaurante para conviver
com os presentes. Sem um guarda-costas visível, Jerry Rawlings cuidou logo de pedir àqueles que se tinham levantado que se sentassem porque, afinal, considerava-se apenas um cliente. Longe das arbitrariedades de alguns antigos chefes de Estado, o antigo estadista ganense quis ser um cidadão normal. Dirigiu-se ao balcão, escolheu o peixe que pretendia e o que haveria de beber.

Entre os presentes, em plena cidade namibiana, um pequeno grupo, por falta de hábito, recusava-se em acreditar que estava perante um ex-Presidente cujo único desejo era viver como os demais presentes. Mas Rawlings, como soe dizer-se, estava nem aí. Pediu aos presentes que se sentassem depois da veemência quando o viram chegar.

Comeu, bebeu e quando saiu protagonizou o mesmo gesto, explicando que, à semelhança dos demais, era um simples cliente. Não acostumados, ao lado do colega Eugénio Mateus, ainda nos perguntamos sobre quando é que poderíamos ver em Angola um ex-estadista com aquele à vontade, longe dos holofotes e do aparelho securitário, a passear-se depois de ter servido bem o seu povo.