É de hoje…O voto de qualidade

Uma das discussões políticas feitas em determinadas democracias assenta naquilo a que se chama voto de qualidade. Existem hoje sectores que acreditam que o peso do voto de uma pessoa bem dotada intelectualmente poderia não valer o mesmo que o de uma outra entidade, a julgar pelo conhecimento que este tem sobre os assuntos mais delicados e a abordagem desapaixonada que é capaz de fazer ao analisar e direccionar o sentido de voto. Trata-se de uma questão discutível. Mas nos primórdios de algumas democracias foi assim.

Felizmente, garante a nossa constituição que todos os cidadãos são iguais perante à lei. Não obstante as nossas diferenças sociais, económicas bem visíveis nalguns casos, religiosas, ainda nos podemos arrogar ao facto de gozarmos, pelo menos legalmente, dos mesmos direitos que um cidadão mais rico ou politicamente bem posicionado.

As últimas eleições na Federação Angolana de Futebol (FAF) obrigam-nos também a uma reflexão neste sentido. Porque, embora tenha sido declarado vencedor no final das contas, com base nos votos alcançado na maioria das províncias, o presidente eleito, Artur de Almeida, estará consciente do sabor amargo que essa vitória carrega por não ter conseguido o ‘sim’ das zonas tradicionais da nossa praça.

As províncias de Luanda, Benguela, Huambo, Huíla, Cabinda e Lunda-Norte são aquelas que regularmente enviam equipas ao Campeonato Nacional da primeira divisão. É nestas províncias onde estão instaladas as principais referências do futebol angolano e até africano, entre os quais o 1º de Agosto, Petro de Luanda, Sagrada Esperança, ASA, 1º de Maio de Benguela e outros. Vencer as eleições sem no mínimo obter uma vitória ou uma derrota menos expressiva sobretudo em Luanda acaba sempre por retirar algum brilho a quem tenha vencido o pleito.

A rejeição demonstrada expressivamente pelas equipas da capital do país, assim como o grosso noutras províncias, indica que o reeleito presidente da Federação Angolana de Futebol não gozava de grande empatia. Tem pela frente a árdua tarefa de reconquistar a confiança destes. Não fosse o surgimento, nesta fase do campeonato eleitoral, dos habituais clubes cuja representação tem sido meramente nominal, talvez a disputa no pleito de ontem pudesse ter um outro desfecho, provavelmente desfavorável ao actual vencedor.

Mas, nestes momentos tanto os clubes grandes como os pequenos, sem qualquer desprimor, gozam dos mesmos privilégios. São iguais perante as normas estatutárias da FAF. Mesmo que não actuem ou exerçam qualquer actividade digna de realce, na hora do voto elas acabam por ter mais expressão na hora do desempate por estarem sempre em maior número.