Vida nada pacífica

Não tem sido nada pacífica a forma como vivem muitos dos nossos irmãos que habitam nos imóveis, à entrada do Zango, que ganharam o nome de ‘Vida Pacífica’. O sonho da casa própria, que pensavam ter alcançado quando se inscreveram para ter acesso às famosas centralidades, depois de longas filas e noites mal dormidas, está longe de ser uma realidade, principalmente quando São Pedro decide abrir as torneiras.

As últimas chuvas demonstraram, uma vez mais, o martírio que tem sido habitar naquelas paragens. Edifícios completamente inundados à entrada, carros submersos e outros prejuízos têm sido visíveis todos os anos.

As imagens remetem-nos, inevitavelmente, a uma apreciação sobre os trabalhos preliminares e outros estudos feitos pelas empreiteiras chinesas que as construíram, assim como aos próprios responsáveis angolanos que estiveram por detrás das negociações e aprovação dos projectos.

À primeira vista atribui-se culpas aos empreiteiros chineses pelos estragos. Mas seria de certa forma irónico acreditar que estes se tenham substituído aos engenheiros e outros decisores angolanos que identificaram os espaços, escolheram os projectos e melhor conhecem os nossos solos, as linhas de água e outras especificidades.

As últimas enchentes fizeram-me recuar, uma vez mais, a um encontro com um alto responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês há pouco tempo. Descontente com as críticas apontadas ao seu governo e às empresas locais, disse que se tinham limitado apenas a fazer ‘aquilo que nos fora solicitado pelo vosso Governo’.

Quando se vê as enchentes nos edifícios que conformam a centralidade ‘Vida Pacífica’, as ravinas no Mussungué, na Lunda-Norte, as estradas degradadas em quase todo o país, depois de um investimento bilionário, e muitas unidades fabris deterioradas antes de terem entrado em funcionamento não podem ter sido feitas sabendo-se, de antemão, que se transformariam em problema poucos anos depois.

Caso seja verdade, não há palavra para descrever a irresponsabilidade e a ganância a que alguns dos nossos concidadãos se entregaram na altura. E, hoje, por mais que não queiramos, lembrar-nos-emos de que um cidadão chamado Bob Geldof afinal sempre teve razão sobre o que se passava no país.