O que podemos esperar de Joe Biden?

O que podemos esperar de Joe Biden?

Uma vez contados os votos do Colégio Eleitoral a meio de Dezembro, e por mais que isso custe a Donald Trump e aos que o rodeiam, a administração Biden/Harris tomará então posse estando a data da cerimónia prevista para 20 de Janeiro. Nesse dia, Joe Biden e sua vice-presidente Kamala Harris deverão ser empossados após os juramentos por John Roberts, o presidente do Supremo Tribunal, e Trump perde automática e oficialmente os seus poderes como comandante-chefe.

Idealmente, até lá, estaria em curso um processo de transição entre as equipas e responsáveis de ambos os lados, para passagem das pastas mais relevantes. No entanto, como alertou muito recentemente a ex-National Security Advisor Susan Rice, no ‘The New York Times’, o facto de Trump estar a bloquear a partilha de informação e o acesso aos elementos do ramo executivo está a colocar em risco a segurança nacional e a impedir também a preparação das medidas de combate à pandemia e de recuperação económica por parte dos democratas.

Pela positiva, o que Rice também faz notar no mesmo artigo é que Joe Biden será “o mais experiente presidente-eleito de sempre a tomar posse”, levando consigo um conjunto de peritos altamente qualificados e conhecedores. Algo que se comprovará após ver como conseguirão resolver assuntos, que deveriam a estar preparados ao longo dos meses da transição, apenas nas poucas semanas, ou mesmo em alguns casos dias, que terão ao seu dispor.

Nos EUA, após as eleições, desde F. D. Roosevelt que são os primeiros 100 dias que marcam o tom daquilo que será a imagem de marca da Presidência. No caso de Biden/ Harris há, portanto, uma check list de objetivos a cumprir até 29 de Abril de 2021. E, ao longo da sua campanha, Biden foi incluindo nos seus discursos várias pistas sobre quais serão os seus primeiros passos com presidente incluindo; a massificação dos testes em todos os Estados e gratuitamente para quem não os puder pagar, acções executivas no âmbito do combate às alterações climáticas, a implementação de alterações no âmbito da reforma do sistema de Saúde e que já denominou como Bidencare, a reversão de decisões tomadas por Trump no que respeita à imigração e, também, a fazer fé naquilo que é o discurso incluído no site criado para o período de transição (buildbackbetter.com) um aumento dos impostos para as grandes empresas que ajude a financiar o seu programa de auxílio aos pequenos e médios empresários pequenas empresas e aos trabalhadores.

Estas medidas que é possível antever são, no entanto, orientadas para dentro. O que podemos então antecipar em termos de política externa? De que forma poderão as políticas da nova administração ajudar África? Para responder a esta questão, é de grande utilidade a chamada de atenção feita pelo ‘Council on Foreign Relations’ (cfr. org). Como é salientado num artigo publicado no início deste mês, a campanha democrata publicou “A Agenda Biden-Harris para a Diáspora” que permite desenhar um esboço das preocupações africanas de uma administração Biden.

Sendo o documento mais virado para o eleitorado da diáspora, portanto para os africanos ou de descendência africana habitantes dos EUA, ele lista também algumas intenções do ponto da política externa. Nomeadamente, como destaca o CFR, quanto às relações dos EUA com África é prometida uma mudança de tom, a restauração do “compromisso de respeito mútuo” e o renascimento e revigoramento da diplomacia. Igualmente reafirmado é o apoio norte-americano às democracias africanas e ao crescimento económico, sendo mencionada a continuação da ‘Iniciativa para Jovens Líderes Africanos’ criada pela administração Obama e o reforço da diversidade no corpo diplomático.

Para os analistas: “Não há referência a um aumento nos gastos federais dos EUA com ajuda e desenvolvimento de África. Nem há compromissos para um envolvimento mais profundo dos EUA nos desafios de segurança africanos. Ainda assim, os objetivos gerais delineados neste documento reconhecidamente de campanha – se combinados com nomeações de altos funcionários com qualidade elevada – têm o potencial de transformar para melhor o tom das relações de Washington com os países africanos”.

Quanto a Angola em particular, ainda será necessário aguardar algum tempo para conhecermos as intenções da nova administração. Só depois de “arrumar a casa”, da definição de medidas mais macro em termos de política externa e de serem conhecidas as nomeações será possível ler os sinais que permitam antever objetivos mais concretos. Uma coisa, no entanto, parece desde já evidente: A relação de Angola com a China será o diapasão pelo qual a música se afinará, no que toca a uma maior ou menor aproximação entre uns EUA governados pelos democratas e o nosso país. Já depois de eleito, Biden afirmou claramente que os Estados Unidos precisam de negociar com aliados para definir regras de comércio global que permitam conter a crescente influência chinesa, ao mesmo tempo que se recusou a dizer, para já, se participaria da Parceria Económica Regional Abrangente (RCEP, na sigla em inglês) assinada há poucos dias e que é já o maior bloco comercial do mundo com base num acordo envolvendo 15 países da Ásia-Pacífico incluindo a China, Japão e Coreia do Sul. Como foi notado por alguns analistas, a hostilidade em relação à China é compartilhada por sindicatos e grupos de esquerda que ajudaram a eleger Biden e vêem o apoio democrata dado anteriormente a acordos comerciais como o Nafta como uma traição.

Competição com a China à parte, o ideal seria que Biden e os seus escolhidos para liderar as relações com o continente africano partilhassem da visão do ministro alemão para a Cooperação Económica e o Desenvolvimento, Gerd Müller, quando afirma que é necessária uma mudança de paradigma. “Temos que perceber que a África não é o continente das commodities baratas, mas sim que o povo da África precisa de infraestruturas e de um futuro”, afirmou. Para isso, os alemães falam mesmo de um Plano Marshall para África. Mas isso será tema para um futuro artigo. Veremos que caminhos a diplomacia percorrerá entre os vários continentes até chegar a nós e de que forma nos poderá efectivamente ajudar.

POR: Sebastião Martins