A estratégia neo-otomana de recep erdogan

A estratégia neo-otomana de recep erdogan

Usar a História, encontrar na História e nas histórias da comunidade “um passado útil” é uma arte. Uma arte que, num mundo onde as identidades religiosas e nacionais voltam a valer, alguns líderes sabem e praticam melhor que outros. Podem chamar-lhes populares ou, pejorativamente, populistas.

Mas num mundo desencantado, com as utopias da globalização política e económica em crise, os povos, de uma maneira ou de outra, voltam à procura das identidades religiosas, nacionais, até regionais, pois é aí que sentem segurança e solidariedade. Se há um dirigente político que entendeu bem e tem usado este fenómeno, é o actual Presidente da Turquia, Recep Erdogan. Nascido em Istambul, em 1954, numa família religiosa e conservadora, Erdogan fez estudos de Economia na Universidade de Mármara.

Começou a sua carreira política como presidente da Câmara de Istambul, entre 1994 e 1998, pelo partido Refah (Partido do Bem-Estar), um partido islâmico que foi proibido por pressão dos militares. Erdogan foi, aliás, preso durante quatro meses, por ter citado um poeta nacionalista, considerado radical. Em 2001 fundou o partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), um partido religioso, mas considerado moderado que ganhou maioria absoluta nas eleições de Novembro de 2002. Em 2003, já com os seus direitos políticos plenos, foi Primeiro Ministro com uma maioria de dois terços do Parlamento.

Erdogan conseguiu melhorar consideravelmente a economia turca, a seguir à crise de 2001, sendo sucessivamente reeleito como Primeiro Ministro e ganhando também dois referendos constitucionais em 2007 e 2010. Erdogan e o AKP seguiram uma linha de tensão cautelosa com a tradição do laicismo de Atatürk e com os militares, que sempre se consideraram – e eram, constitucionalmente – os vigilantes desse laicismo.

Mas o sucesso económico dera a Erdogan apoio popular e ele foi-o usando habilmente. Ao mesmo tempo, mantinham-se os problemas com as negociações para uma hipotética admissão na União Europeia e a eterna ferida do secessionismo curdo do PKK, que não hesitava em recorrer à acção armada, assim justificando a linha dura do Estado. Em 2014, Erdogan foi eleito Presidente da República, tendo passado o regime institucional de uma República Parlamentar para uma República Presidencialista.

Mas o ponto mais importante e interessante da política de Erdogan foi aquela linha de política externa a que se passou a chamar de Neo-Otomana, uma linha inspirada por uma convergência de factores religiosos e nacionais e que procura, jogando com os sentimentos patriótico e o orgulho do povo turco e os seus sentimentos religiosos, activar um revivalismo que lhe serviu como arma de mobilização nacional. Aqui entra a História: a grande unidade política do Islão moderno foi o Império Otomano, sobretudo a partir de 1453, quando o Sultão Maomé II tomou Constantinopla.

Os Turcos, às portas da Europa, com presença e influência no Norte de África até Marrocos, dominando todo o Médio Oriente, o Egipto e a Cirenaica, descendo até ao Sudão, foram efectivamente um grande império que, ao longo de quatro séculos, fez frente ao Ocidente. Só que, em 1914, o Império Otomano aliouse com os Impérios Centrais – Alemanha e Austro-Hungria – contra os aliados franco-ingleses. Durante a Grande Guerra, os Ingleses – com o célebre T.E. Lawrence, Lawrence da Arábia – provocaram as revoltas árabes dos Hachemitas e Sauditas contra os Turcos.

E com a derrota dos Alemães e AustroHúngaros, os Turcos, seus aliados, tiveram de pagar o preço da derrota – perda de território para os Ingleses e Franceses e as novas monarquias árabes no Médio Oriente. Perda de território na Anatólia para os Gregos, e repúblicas independentes de Arménios e Curdos. Este foi o tratado de Sèvres, assinado na célebre cidade das porcelanas pelos representantes do Sultão de Istambul em Agosto de 1920, há cem anos. Por esse tratado, a Turquia perdia todo o Médio Oriente que dominara até então, mas também parte da própria Anatólia, para Gregos, Arménios e Curdos. Foi então que, em Ancara, Mustafa Kemal Atatürk se revoltou contra o Sultão e contra o Tratado e, depois de uma série de campanhas vitoriosas contra as forças aliadas, os Gregos, os Curdos e os Arménios, assinou o Tratado de Lausanne em 1923, que deixou a Turquia com as fronteiras de hoje. Atatürk foi o grande vencedor da guerra da independência turca de 1919-1922; foi também o grande modernizador da Turquia, laicizando-a. Erdogan procura hoje aparecer aos seus concidadãos como uma síntese entre o revivalismo religioso corânico e a nostalgia do poder otomano. Por isso interveio na Síria e contra as milícias curdas do YPG, apoiou os Irmãos Muçulmanos no Egipto, apoia o governo de Acordo Nacional em Trípoli, reclama agora as territoriais nas costas da Grécia e desenvolve uma presença económica, diplomática e militar em África.

Em 2016, a intentona militar deu-lhe o pretexto para domesticar os militares. Por um lado, procura revestir-se da bandeira do Islão internacional, e recentemente voltou a transformar a simbólica Basílica de Santa Sofia em Istambul, por decreto, numa Mesquita, entronizando-se como um novo chefe dos crentes. Mas ao mesmo tempo Erdogan tem bem exposto no seu gabinete o retrato de Atatürk.

E enquanto esgrime verbalmente contra Macron e os propósitos do Presidente francês de combater o Jiadismo em França, em nome das liberdades francesas, Erdogan assume-se como o líder e protector do Islão mundial. O Presidente turco actua politicamente em todo o espaço à sua volta, não se importando de multiplicar inimigos: assim é no Chipre, nas águas limítrofes com a Grécia, no apoio ao Azerbaijão, no Nagorno-Karabakh na confrontação com a Grécia, o inimigo tradicional.

E é, também em relação à Europa, usando da arma dos refugiados ou migrantes, que a Turquia retém no seu território, mas que pode, a qualquer momento, deixar avançar para a Europa. Uma Europa desunida e que não sabe, neste e noutros casos, que fazer. Quanto À África, a Turquia nos últimos anos multiplicou a presença diplomática e económica: abriu novas embaixadas, mais que quadruplicando o número de 2003 até hoje, de nove para mais de quarenta; houve também uma abertura de novos escritórios da TIKA, Agência Turca de Cooperação.

Também a Turkish Airways intensificou as suas carreiras em África e, em meados de 2019, voava para 56 destinos, colocando-se logo a seguir à Ethiopian Airways, como linhas principais no Continente. Com esta agressiva política exterior, Erdogan quer também contrabalançar alguns problemas internos e impôrse a uma oposição que parece mais activa para lhe fazer face, sobretudo desde que, em Julho de 2019, Ekrem Imamoglu, do Partido Republicano do Povo, (CHP) venceu as eleições para a Câmara de Istambul. Segundo uma sondagem da Avrazya, Imamoglu venceria, embora por curta margem (42% versus 39%), Erdogan numa eleição presidencial. Por isso Erdogan apela ao orgulho nacional turco, e à guerra patriótica de Atatürk de há cem anos, preparando-se para ir com essas referências para as próximas eleições..