Sempre foi o diálogo

Um dos jingles mais emblemáticos antes do fim da guerra no país terá sido o produzido pela Emissora Católica de Angola, a conhecida Rádio Eclésia. Nele escutava-se o então deputado do MPLA, Adelino Marques de Almeida, dizendo que ‘negociar era extremamente perigoso, porque a rebelião deveria ser combatida com todos os meios e forças à disposição do Estado angolano’.

Ainda principiante nas lides jornalísticas, os debates promovidos pela emissora pertencente à Igreja Católica dominavam as audiências aos Sábados e conduzidos profissionalmente por alguns dos jornalistas que hoje emprestam o seu saber a outras emissoras. Ao lado de outros deputados e jornalistas, como André Passy, Alexandre Gorguel e outros, o jingle, que anos depois acabou por ser retirado, demonstrava o cansaço que determinados sectores evidenciavam na época, fruto dos acordos mal conseguidos entre o Executivo angolano e a UNITA, na altura comandada por Jonas Malheiro Savimbi.

Não obstante as posições assumidas, algumas entidades da sociedade civil defendiam, de forma acirrada, o estabelecimento de pontes para que se chegasse às negociações que levassem à paz. Organizações como o Comité Inter-Eclesial para a Paz em Angola (COIEPA), em que despontavam nomes como os do reverendo Ntoni Nzinga, bispo Zacarias Kamuenho e noutros, bateram-se arduamente para que o calar das armas não fosse encontrado depois de inúmeras refregas militares, entre as quais a ‘última’ em Fevereiro de 2002 que ceifou a vida do líder fundador da UNITA.

Ainda assim, enquanto alguns sectores pensavam que o fim do conflito dependesse única e exclusivamente da morte de Jonas Savimbi, foi necessário que as partes se sentassem, dando origem ao conhecido Memorando do Luena, um apêndice aos acordos de Lusaka. Sendo um direito constitucionalmente consagrado, as manifestações existirão sempre. Jovens, adultos ou até anciãos terão a hombridade de as apoiar quando estiverem em causa reinvidicações que têm como base a melhoria das condições de vida e os direitos e garantias fundamentais dos cidadãos.

O que não se pode descurar é que, entre as manifestações e a resolução dos problemas, haverá sempre um intervalo de diálogo que não pode ser menosprezado. Nesta ‘guerra’ contra o desemprego, melhoria das condições de vida e até mesmo a realização das eleições autárquicas será necessário o concurso de todos. Os modelos e as formas de abordagens podem ser reinventados e acertados, mas a opção pela cadeira vazia tenderá sempre a retirar argumentos de razão a quem tem solicitações por apresentar.