A transformação da língua. mindele, não significava brancos em kikongo

A transformação da língua. mindele, não significava brancos em kikongo

A caça, agricultura e a pesca são, e sempre foram, a prática diária para o sustento e o bem-estar da população africana. Qualquer terra, é regida de leis e deveres, religião, política, economia e o poder político que zela todas as questões comunitárias. Assim também era o Reino do Kongo. Bem estruturado política, religiosa e economicamente. Assim, foi se vivendo um paraíso na África central, claro que com os seus probelmas, pois não há terra sem problemas e nenhum problema é insuperável.

O povo estava conciencializado de que em vida precisa-se de persistência, luta e a cima de tudo crer num único Deus “N’zambi-Ya-M’pungo” e nos seus lugares de adorações onde recebiam bênçãos e sabedorias de como prosseguir com a vida. O Reino do Kongo, como qualquer outro reino, tinha os seus limites territoriais e a sua capital M’banza-A-Kongo.

O seu povo alegre e obediente à sua terra, respeitando a cultura que é passada até aos dias de hoje. A sua língua, o kikongo, é conhecida até hoje, sendo uma das línguas mais lindas, falada em muitos povos africanos, pois dela surgiram também várias línguas. Hoje observa-se várias transformações da língua acompanhando a evolução da sociedade. Tudo começara em 1482, chegando na foz do rio Zaire, um navio desviado pela força do vento que no seu percurso desejava chegar à Índia. Nele desciam pessoas de cor diferente, que ninguém sabia de onde vieram.

E era estranho o meio de transporte que usavam, algo nunca visto e imaginável. Pois, do mar só vinham maus espíritos de acordo a cultura kongo. Sabia-se que existiam outros povos por aí, mas não se pensava existir pessoas de cor diferente se não apenas albinos que eram chamados de “mindeles”. Mindeles (albinos), não eram vistos como pessoas normais.

No nascimento de um mindele (albino), faziam-se uns rituais para neutralizar os espíritos e dar aos deuses o aviso de que não se queria mais pessoas daquela cor. Os rituais eram fortes e pesados, passavam noites e dias a realizar os rituais, para que aquela mulher não pudesse mais dar à luz a um filho assim. Para que não tivesse aquele azar novamente. Então, os mindeles (albinos) eram vistos como pessoas que vinham de terras espirituosas. Tal como o aparecimento de pessoas noturnas que são chamadas de defuntos.

Em Kikongo, “minkuia”. Estas cerimónias tradicionais eram diferentes com a cerimónia do nascimento de gémeos ou trigémeos ou com nascimento de uma criança diferente do nascimento comum. Os rituais eram totalmente diferentes. Mesmo quando na morte de uma destas pessoas. No Reino, a prática da pesca era constante e perto da margem do rio Zaire que desagua no Oceano Atlântico, estavam os pescadores e alguns caçadores, espantados ao verem o navio e dela descerem pessoas de cor diferente do normal para eles, na ápoca. Alguns sem coragem fugiram e outros apavorados conseguiram conterse enquanto gritavam desesperados, “mindele”, “mindele”, “mindele…”

Assim, os portugueses aperceberam-se de que estavam a ser chamados de brancos e até aos dias de hoje persiste essa percepção. Na verdade, se fossem chamados de brancos, seria “Bantu-ampembe” em vez de mindele. Pois, mindele significava demónios, tormentos, albinos.

*Ema Nzadi, escritor e membro do Movimento Litteragris.