É de hoje…Arquivo e arredores

A primeira vez em que entrei no Arquivo Histórico de Angola, na baixa de Luanda, terá sido no final da década de 90. Acompanhado de um colega, hoje estacionado no Ministério das Finanças, quisemos revisitar jornais antigos, como o A Província de Angola e o Notícias, de João Charrula de Azevedo, para a conclusão de um trabalho.

Instalado num edifício velinho, o Arquivo era, por si só, um lugar abafado e impróprio, com os arquivos, entre jornais e outros documentos sobrepostos, muitos dos quais em locais que faziam transparecer algum desleixo. O que não era verdade, porque, por mais que os técnicos se esforçassem, não havia espaço e muito menos acomodação que pudesse dignificar o material aí conservado, embora guardasse consigo a memória colectiva de todos nós.

Mais do que um novo edifício, como o inaugurado no último Sábado pelo Presidente da República, João Lourenço, num investimento que ronda os cerca de USD 100 milhões, a maior preocupação prende-se com o aproveitamento daquele monstro a que se atribuiu agora o nome de Arquivo Nacional de Angola (ANA).

A estrutura exigirá um maior esforço quanto à sua manutenção, o que significam outros largos milhares ou milhões de Kwanzas para os cofres públicos caso não se encontrem mecanismos que assegurem o seu melhor uso. São poucas as instituições públicas no país que conseguiram manter a mesma qualidade de serviços e uma imagem quanto às infra-estruturas anos depois da sua inauguração. Talvez por isso o Presidente da República tenha defendido, ainda durante a inauguração, que se criasse um fundo de manutenção do Arquivo Nacional.

Além do fundo proposto, é imperioso que se estabeleçam regras para os frequentadores, entre estudantes, académicos e outros visitantes, e se eduque até os que lá labutam no sentido de se preservar ao máximo aquele monstro.

A noção da preservação do bem comum tem sido um dos maiores problemas neste país. Foram vários os imóveis que vimos perderem-se lentamente sem que se fizesse o mínimo para salvá-los, porque a ilusão pelos petrodólares venderam-nos, infelizmente, a ideia de que o mais importante é fazer o novo e deixar de lado o velho.

Um dos exemplos flagrantes do nosso descaso é o que acontece, por exemplo, com as estradas. Quando se pode salvar determinados troços que pedem pequenas intervenções de tapa buraco, quase que ninguém se importa. Talvez porque movimentar máquinas para uma ‘obrinha’ seja menos lucrativo do que deixar que aquele pequenino buraco cresça e se encareça ainda mais as responsabilidades do Estado. Tem razão o escritor Dario de Melo  quando, numa crónica, há alguns anos, escrevera que “em Angola os buracos têm que ter estatuto”.