É de hoje…A fé não é cega

Foi a partir dos finais da década de 80 ou princípios de 90 que os vendedores da teoria da prosperidade iniciaram a sua aventura neste país. Vivia-se então um momento de instabilidade política, económica e social, que se traduzia numa pobreza em que os angolanos não viam sequer as mãos que lhes eram estendidas para sair do sufoco.

As igrejas evangélicas, entre as quais as fundadas no Brasil, aproveitaram-se desta fase, umas à reboque de entidades políticas bem posicionadas, para transformarem o país no seu el dourado. Mas antes destes, uns anos antes, aportara entre nós um pastor que dizia recompor os coxos, abrir os olhos aos cegos e tratar portadores de outras maleitas.

Ainda mergulhados num sem-abismo, acredito hoje que se usou um expediente fraudulento para realizar os supostos milagres, que terão válido umas boas doações e outras oferendas.

A forma como muitos angolanos se entregaram aos braços de algumas congregações religiosas, na esperança de beneficiarem de milagres, e ver os seus impérios multiplicarem-se ou contas bancárias mais recheadas, tal como Cristo fez com os pães, peixes e o vinho, nas bodas de Canaã, serviria para o roteiro de filmes que fariam boa figura nos mais importantes festivais de cinema do mundo.

A cada dia que passa surgem elementos que nos levam a questionar como foi possível penetrar na mente de muitos cidadãos a ponto de largarem tudo o que tinham em nome de uma fé que mais se evidenciava caminho para o enriquecimento de outras pessoas. Entregar 700 milhões de Kwanzas para obter um milagre deve ter sido uma bênção para aqueles cujo único caminho que conheciam era exportar o capital para alimentar mansões no Brasil, Estados Unidos e suportar as despesas de filiais noutras partes do mundo.

A busca incessante por um lugar no céu, prosperidade e um simples beijo de um líder que não se coibiu em amaldiçoar os seus próprios crentes é hoje motivo de desestruturação de vidas e de projectos que poderiam caminhar com os próprios pés, confiando apenas em Deus e menos no homem ‘mau’.

O desrespeito por Angola e os angolanos, a falta de investimentos em projectos sociais, como têm feito outras congregações, nunca deixaram dúvidas de que muitas destas Igrejas apologistas da teoria da prosperidade conheciam um único caminho: o bolso do pacato cidadão sofredor.