É de hoje…Linhas que podem coser

Lembrar-nos-emos seguramente de um discurso feito há alguns anos em que se declarava Angola como sendo um canteiro de obras. Um país saído dos escombros de uma guerra de largos anos conseguira, junto dos seus principais parceiros internacionais, apoios para a edificação das suas infra-estruturas, depois de abandonado pela comunidade internacional quando se pretendia uma conferência de doadores.

Lembrar-se-ão, seguramente, muitos que para alguns países não havia razão sequer para que Angola estivesse de mãos estendidas. Acreditava-se que os seus principais dirigentes, alguns deles mencionados como autênticos ‘senhores da guerra’, possuíam capital suficiente que pudesse ajudar o país a reverter a situação calamitosa herdada de uma guerra de longos anos.

Lembrar-se-ão, alguns, hoje, do que já se dizia em relação ao conhecido processo Angolagate, um necessário expediente para se equipar as Forças Armadas Angolanas no esforço da guerra contra o braço armado da UNITA. Mas transformou-se num processo confuso, envolvendo centenas de milhões de dólares, em que pontificaram nomes como Pierre Falcone, Arkady Gaydamaky, Charles Pasqua e uns tantos angolanos. Comparado ao que se passou posteriormente, Angolagate pode ser um petisco. Por isso, sem muita credibilidade junto de algumas chancelarias internacionais, restavam-nos apenas os principais parceiros, entre os quais o Brasil, o primeiro a reconhecer a Independência de Angola e a China, cujas exigências de crédito foram menos duras do que o bicho-papão Fundo Monetário Internacional e outras instituições europeias e americanas.

As perspectivas desenhadas pelos montantes provenientes destes países credores e outras instituições financeiras serviriam para se aferir a credibilidade do país lá fora e através destas empreitadas captar novos recursos.

Preferirmos o contrário. Dos vários biliões cedidos, a opção foi por muitas infra-estruturas duvidosas, um processo de reconstrução de estradas que hoje exige investimentos semelhantes aos dos anos em que se acreditava estar perante o canteiro de obras e uma imagem ainda mais desgastada perante os países que abriram, inicialmente, as linhas de crédito para Angola.

Hoje, quando se questiona junto do próprio Ministério das Finanças a razão do encerramento de algumas destas linhas, sem que se diga nada, as causas podem estar assentes nas imagens que nos são dadas a ver através da série que a TPA tem vindo a nos proporcionar: serviu para um banquete.

Agora, é preciso que as representações angolanas no exterior vendam muito mais a imagem deste país novo que se está a construir. Este país que já sobe no ranking de reputação e que não permitirá que os dinheiros emprestados em nome dos angolanos sirvam para os interesses particulares de uns poucos. Caso contrário, poucos se sentirão confortáveis em abrir as linhas para que nos possamos coser e terminar alguns projectos que se encontram praticamemente encalhados por falta de dinheiro.