A GUERRA: memórias da minha infância (parte ii)

A GUERRA: memórias da minha infância (parte ii)

Cada vez que o João Diaketé passava pela nossa casa, prometia sempre me dar bolachas ou uma lata de leite Moça que trazia do quartel se eu lhe dissesse o meu nome completo como ele gostava de ouvir. Ele e o seu primo Drumo gostavam de vir juntos brincar comigo, sempre começando por me perguntar como me chamava.

Respondia-lhes prontamente: Ricardo Masonama Ngolo-Za-Nzambi. E eram os dois últimos nomes que gostavam de ouvir, davam gargalhadas assim que eu terminasse de pronunciálos. Gostavam muito de mim, diziam, porque eu era uma criança muito perspicaz. E o João Diaketé trazia-me mesmo as bolachas ou a lata de leite Moça que ele prometia. Adivinhava que vinha para honrar a sua promessa quando o via regressar do quartel pela nossa rua, Saidy Mingas, um herói do MPLA, com a mochila nas costas.

Sempre tinha a sua Makarov pendurada na anca direita e às vezes trazia uma AK-47 nas costas, com o cano aponta do para o céu, ou na mão direita, com o cano apontado para o chão. Vestia um uniforme de camuflagem novo em folha, o que indicava que ele era um novato nas FAPLA e que era jovem. As suas botas Ranger de couro preto, que ele limpava o tempo todo, tornavam-no mais áspero; pareciam um pouco grandes demais para os seus pezinhos.

O João Diaketé era magro, baixo, muito jovial e afável. A pele dele era um pouco mais escura que a minha, embora os naturais de Mbanza-a-Kongo não fossem nem muito claros nem muito escuros. Os amigos chamavam-no de Djeef por motivos que eu não conhecia mas todos o conheciam por João Diaketé. Era João Diakaté porque o irmão mais velho do Drumo, seu primo, também se chamava João. Para os diferenciar, foi então cognominado de João Dya-Keté, que signifi ca João, O-Pequeno.

O seu nome ofi cial é João Baptista Rafael. E não se dizia “O-Pequeno” por causa da sua baixa estatura ou do seu corpo que era pequeno. Era por causa da sua idade em relação ao outro João, seu mais velho, que, por comparação, se chamaria João Dya-Nené, ou seja, João, O-Grande. A língua dos Bakongo, esse velho povo inteligente e sábio, é muito colorida. Um acontecimento, um comportamento, um gesto, um tique, mesmo uma falta de jeito ou uma deficiência sempre inspiram um apelido que se tornará um epíteto para descrever a pessoa que o inspirou. E se o João Diaketé e o Drumo gostavam dos meus nomes era porque me viam pronunciá-los com elevado sentido de dignidade e honra. Masonama foi escolhido pela minha avó materna porque o meu pai não queria mais filhos depois do meu irmão Nito.

Mas a minha mãe deu-lhe mais dois, antes de mim, e eles até brigaram no dia em que nasci tanto que a minha mãe, zangada, foi dormir na cozinha, que estava fora de casa, durante três dias. Masonama é o que está escrito, o que deve tornar-se realidade, não importa o que aconteça. É o destino. E foi pelos mesmos motivos que a minha mãe me chamava, e fê-lo até a sua morte em 2013, por Ngolo-Za-Nzambi, que significa “poder de Deus”. Aliás, a minha amiga Xolile Tshabalala, uma famosa atriz sul-africana, gosta particularmente desses nomes.

Nunca quis me chamar de Ricardo, nome que ela acha feio. Para ela, sou Masonama ou Ngolo-Za-Nzambi. Como ela, o João Diaketé também gostava de me ouvir dizer esses nomes, ele também era um africano feliz na sua africanidade. Djeef e Avelino, seu amigo que morava na casa anterior à sua, ao descer a rua em direção ao mercado da Lavandaria, que fi cava a menos de 100 metros dali, foram livremente à tropa. Ambos fi zeram parte dessa geração sacrifi cada, nascida no fi nal da década de 1960 e que, inevitavelmente, fez parte dos chamados “Abrangidos”, isto é, aqueles que tinham idade para ir à guerra, 18 anos. Portanto, havia essa escolha, ou a de se esconder perigosamente para escapar das violentas rusgas. Quando se escolhia a outra opção, porque muitos não viam nenhum encanto ou charme em ir matar os seus irmãos angolanos, por qualquer motivo que fosse, a vida acabava aí. Não se podia trabalhar. Não se podia ir para a escola. Não se podia viajar e muito menos circular livremente. Portanto, viver era esconder-se. Poucos dessa geração tiveram a isenção militar ou o adiamento, e todos tinham que se recensear, a partir dos 16 anos, no Centro de Recenseamento Militar (CRM) local e ir apresentar-se aos 18 anos de idade. No início, ninguém queria participar nessa guerra louca.

Os rapazes iam esconder-se à noite nos forros das casas ou nas lavras onde as suas mães lhes traziam comida. Mas era muito cansativo e frustrante, foi assim que alguns, como o Djeef e o Avelino, decidiram render-se. E tornaram a ideia da guerra mais esplêndida aos olhos de crianças como eu. As crianças da minha idade também queriam fazer como eles: servir a uma causa que nos parecia justa para sermos considerados heróis diante dos vilões do Savimbi. A guerra tornou-se então justa, virtuosa, moral e até santa. A bravura do João Diakete tornou-o glorioso e a sua eventual morte imortal, pois ele apoiava uma grande causa heróica que escarnecia a morte. Assim, com os meus amigos, passamos a fazer brincadeiras de guerra e prendíamos todos os meninos dos bairros vizinhos que atravessavam o nosso.

Às vezes, mantínhamo-los durante longas horas trancados em tambores com tampas e expostos ao sol. Isso deu origem a brigas violentas entre os pais em várias ocasiões, mas sempre o fazíamos de novo. Os meus melhores amigos eram o Paulo, irmão do Kota Drumo, e o MeuVido, que morava na casa depois da que seguia a nossa, ao subir a rua, e depois da do Paulo, ao descer. Éramos meninos terríveis. Os últimos a ver João Diaketé foram o meu primo Lucas e a mãe, a tia Carolina, irmã mais velha da minha mãe. O João Diaketé viera buscá-los no aeroporto de Luanda, acompanhado pelas suas tropas e conduzido num Gaz, um camião militar soviético não muito bonito. Havia sido promovido. Deixou-os no Cassenda, na casa da mana Belita, fi lha da tia Carolina. Morreu algum tempo depois num ataque de coluna, a 4 km do Rio Onzo, no Bengo, antes da Musserra. O Avelino já tinha morrido, no Uíge, nas mesmas circunstâncias e no mesmo ano, 1988.
*é Pan-africanista, afrooptimista radicado em Paris, França. É colunista do diário Público (Portugal), cofundador do instituto République et Diversité que promove a diversidade em França e é empresário.