É de hoje… Sacrifício total

Há três anos que o país vive mergulhado numa crise económica sem precedentes. Depois dos anos dourados em que Angola ganhou muito com a alta do preço do petróleo, que o transformaram num propalado canteiro de obras mal aproveitado, os dias que se seguiram continuam a ser dolorosos.

Com a redução das receitas, surgiram os impostos. Os reflexos têm sido pesados para o comum cidadão e as grandes empresas, principalmente nos últimos sete meses em que convivemos com a pandemia da Covid-19. Sem empregos nem dinheiro, muitos angolanos sobrevivem como podem para conseguir o básico para comer, beber, vestir e garantir a assistência médica dos seus filhos e outros familiares directos.

Há quem fale, sem restrições, na existência de uma austeridade pura. Um processo que o Executivo garante que terá, posteriormente, reflexos positivos na vida dos cidadãos. É por isso que a uma parte dos angolanos se solicitou um sacrifício impiedoso, de forma directa ou indirecta, mas um grupo distinto ainda sobrevivia aos esforços, contando-se entre os bafejados pela sorte: os detentores de cargos políticos.

Ainda ecoam os pronunciamentos da ministra das Finanças, Vera Daves, quando num dado momento assegurou, quase que profeticamente, que se resistíssemos neste difícil ano de 2020 viveremos melhor nos posteriores. Entretanto, a dimensão do sacrifício ainda estava longe de ser percebida, porque a pandemia era quase que inexistente e falar de confinamentos uma heresia. Porém, só faria sentido pedir mais sacrifício aos angolanos se se incluíssem também nesta lista aqueles que ocupam os lugares cimeiros no país, mormente os titulares de cargos públicos.

O que se via é que, enquanto se solicitava a uns que apertassem os cintos, do outro lado, um grupo se mantinha isento, mesmo com as responsabilidades e os exemplos que deveriam dar àqueles a quem dizem representar. O momento actual exige, sim, que os cortes afectem a todos. Por isso, faz todo o sentido que os titulares de cargos políticos também se mobilizem para este sacrifício nacional, que, segundo a proposta de Orçamento Geral de Estado, surge na sequência da ‘premente necessidade de consolidação e estabilização orçamental, durante o ano de 2021’.

A suspensão da atribuição de veículos de Estado para apoio à residência de titulares de cargos políticos, magistrados e outros beneficiários, assim como as reduções no subsídio de instalação em 50 por cento para todos os beneficiários e de estímulo, também em 50 por cento, cujo pagamento deve ocorrer em parcela única, é o mínimo que se poderia esperar. Outrossim, ao viajarem em classe económica, ao contrário da executiva, não fi carão diminuídos e dificilmente contrairão qualquer doença que lhes impossibilite de servir melhor os angolanos.