É de hoje…É obra, Segunda Amões!

Definitivamente, haverá poucas razões para nos lembrarmos de 2020. São vários os estragos que vai fazendo. É o ano da Covid-19, que deixou todos confinados. É o ano das falências, desemprego e aquele em que, num curto espaço de tempo, vimos partirem pessoas chegadas e outras que mesmo afastadas sempre as vimos com orgulho. Da política ao desporto, da música à igreja, 2020 deixa-nos cada vez mais pobres.

Não há coração que resista a tanto, num único ano. Atípico, com certeza. Ontem, infelizmente, partiu o empresário Segunda Amões, o homem que largou a cidade e fez do campo o seu principal habitat. Aquele que transformou a pequena aldeia da Camela, no Huambo, onde nasceu, num local quase de peregrinação para quem se desloca a esta província, oferecendo dignidade àqueles que fazem das zonas rurais a sua forma de ser e de estar na vida. Tenho dito aos meus botões, com alguma frequência, que um empresário que se preze precisa de duas coisas fundamentais: um certa dose de aventura e outra de loucura. Há passos que os investidores dão na vida que não são sequer enxergados por quem está distante.

No caso de Segunda Amões, quando deu os primeiros passos na sua Camela, certamente houve quem terá olhado neste projecto uma aventura por parte de quem estivesse maluco para colocar tanto dinheiro próprio numa aldeia até então desconhecida por muitos. Mais do que dinheiro, foi o amor pelos seus, por Angola, pelos angolanos que fez com que Segunda Amões se instalasse aí onde deixara há muito o seu cordão umbilical, devolvendo esperança a uma população sofrida com habitações condignas, emprego e outros serviços sociais até então inexistentes.

Diferente do típico rico angolano, cujas mãos andam mais viradas para o “ENTER” que lhes permite enviar para o exterior o que amealham neste país, algumas vezes até de forma ilícita, Segunda Amões fez o contrário. Fez da sua aldeia natal o protótipo de um sonho que pretendia estender a outros locais do país. Os homens fortes não partem. Pelo contrário, deixam seguidores que se sentirão sempre influenciados pela dimensão da obra física e espiritual que chegou a erguer no Huambo e arredores. Não renegou os seus, fez deles um exemplo a ser seguido nem odiou a sua terra, como o fazem alguns muitos endinheirados deste país que abominam, inclusive, o solo que os viu nascer. Diz-se sempre que Deus sabe o que faz.

É verdade. Mas se nos tivesse dado a primazia de escolher, a nossa selecção natural teria outro ponto de partida. Ao contrário daqueles que tentam fazer deste país um sítio melhor para se viver, talvez pudesse escolher entre os que transformaram a vida dos angolanos um martírio, lambuzando-se num banquete insano, cujos prejuízos serão sentidos por longos e penosos anos.