A insuficiência das palavras

A insuficiência das palavras

No passado mês de Novembro, a Fundação Dr. António Agostinho Neto colocou à disposição do público leitor o livro “Angola Colonial Fotografada por Missionários Metodistas”, de autoria do médico norte-americano Paul A. Blake, que viveu em Angola entre 1948 e 1957, com os pais missionários metodistas. Segundo Maria Eugénia Neto, Presidente da Fundação Dr. António Agostinho Neto, a ideia da sua publicação nasceu de um encontro fortuito na Internet entre a Dra. Irene Alexandre Neto e o seu autor. Escrito em Português e Inglês, o livro, de 296 páginas, com suporte de 523 fotografias (mais três imagens), conta a história da Igreja Metodista na era colonial, que começou com a chegada do primeiro grupo de missionários a Luanda, em 1885, numa altura que passavam já 309 anos desde que Paulo Dias de Novais ocupara Luanda, tendo aberto o caminho a tentativas das ordens monásticas dos Jesuítas, Franciscanos, Capuchinhos e Carmelitas para a evangelização de Angola.

A foto mais antiga do livro data de 1897 e foi tirada na Missão do Quiongua, na casa da missionária Irene Withey, pelo fotógrafo missionário William P. Dodson. A chegada das igrejas protestantes ao nosso país deveu-se a uma das recomendações saídas da Conferência de Berlim, 1884- 1885, que obrigava os países colonizadores a permitirem a organização de missões religiosas pertencentes a outros credos religiosos. O primeiro grupo de missionários metodistas era composto por 17 homens, 7 mulheres e 16 crianças e era liderado pelo Bispo William Taylor. Entre os missionários, havia evangelistas, financeiros, médicos, professores, mecânicos, agricultores e músicos. A ideia inicial era que os missionários fossem auto-suficientes. Portanto, trabalhariam para o sustento próprio e o das missões que criariam. Os missionários metodistas fixaram-se na região Ambundu, Luanda-Malanje. Encontraram um país recheado de dificuldades: muitas doenças e reduzidas vias de comunicação. Dois meses depois, instalaram a segunda missão: a do Dondo. Passados quatro meses aproximadamente, tinham instalado mais três missões, a saber: a do Nhange-a-Pepe, a de Pungo Andongo e a de Malanje.

Anos mais tarde, criaram as missões do Quiongua e do Quéssua. Em 1896, o Bispo Taylor foi substituído pelo Bispo Joseph C. Hartzell. Nesse mesmo período, os missionários passaram a receber salário e a ter mais tempo disponível para a evangelização. Até 1897, os missionários metodistas já tinham formado alguns angolanos, destacando-se João Garcia Fernandes e Mateus Inglês, que assumiram altas responsabilidades e criaram estações metodistas em aldeias distantes onde viveram e trabalharam como pastores. Em 1900, João Leão Weba, uma antiga criança escrava, juntou-se aos dois pastores angolanos. Em 1911, os três tornaram-se nos primeiros angolanos a serem reconhecidos como ministros metodistas. Antes de 1920, altura em que os missionários passaram a usar meios de transporte, enfrentaram muitas difi culdades para as deslocações. Usavam bicicletas, acompanhados por carregadores de bagagem. Também liteira com rodas, igualmente auxiliada por carregadores. Os doentes eram amarrados em troncos que eram carregados no ombro por dois homens, tal como ilustra a foto da página 51. Touros e bois também eram usados como meio de transporte.

A Missão do Quiongua foi a primeira a ter uma capela da Igre ja Metodista em toda a região de África a sul da Libéria, em 1902, tendo em conta que antes de 1914 os protestantes não podiam ter edifícios que se parecessem com igrejas. Depois de 1922, na missão do Quéssua, a Escola Henda, só para raparigas, construiu sete edifícios numa antiga plantação de árvores-da-borracha, que incluíam uma casa do pessoal, dormitórios para 200 raparigas, uma sala de reuniões com capacidade para 350 pessoas, um poço, relvados, recreios, jardins e um pomar com 500 árvores de fruto. As raparigas também aprendiam artes domésticas: costura, saúde e higiene, puericultura e culinária. No Quéssua, havia também a Escola Luz, que era exclusiva para rapazes, onde os alunos aprendiam várias aptidões práticas, como carpintaria, metalurgia, alvenaria, alfaiataria e jardinagem.

Os rapazes também trabalhavam no campo para ajudarem a cultivar o que comiam. Após 1930, o Quéssua era a maior e mais bem-sucedida missão metodista, apesar de a sede administrativa da igreja encontrar- se em Luanda, e ganhou fama como centro para a educação. Em 1954, a Missão do Quéssua criou um liceu, o Colégio do Quéssua, que fora um dos dois únicos liceus protestantes que havia em Angola. O outro era um liceu congregacional no Dôndi. Entretanto, os investimentos na educação eram feitos em todas as missões metodistas, tendo permitido que indivíduos de populações, em grande parte, analfabetas realizassem seu potencial dentro de uma ou duas gerações. Como exemplo, são citados os pastores Agostinho Pedro Neto, cujo trabalho desenvolvido como professor na região de Caxicane fora louvado pelo Alto- Comissariado de Angola, numa carta enviada à sede da Missão de Luanda.

Júlio João Miguel de Carvalho foi durante muitos anos o pastor principal da Igreja Metodista Central de Luanda. Foi o primeiro angolano a saber traduzir sermões dados em Inglês directamente para Kimbundu. Gaspar de Almeida lançou e dirigiu a publicação mensal “O Estandarte”. Foi professor e, mais tarde, director da Escola de Teologia do Quéssua, director da Missão do Quéssua e director de Educação Religiosa para a Igreja Metodista Unida em Angola. Job Baltazar Diogo foi um professor muito capaz na Missão do Quéssua. Fez parte de um pequeno comité encarregado de rever as traduções dos primeiros missionários da Bíblia para Kimbundu, tendo fi cado com a maior parte do trabalho, que fora interrompido com o eclodir da luta de libertação nacional. A Bíblia foi totalmente traduzida e publicada em 1980. A professora Júlia Romano da Missão Metodista de Luanda, que era altamente competente e, em 1935, já leccionava há pelo menos 20 anos.

A este grupo, juntamos também o Doutor António Agostinho Neto, primeiro presidente de Angola, que frequentou escolas primárias metodistas e, em 1947, foi um dos que benefi ciaram de bolsas metodistas, permitindo- o formar-se em Medicina pela Faculdade de Medicina de Coimbra, Portugal, depois de se destacar como um estudante brilhante no Liceu Salvador Correia, em Luanda, que era a única instituição de ensino médio até à década de 1950. Seguramente, o maior legado metodista em Angola é a educação, pois permitiu que, em 1950, houvesse um elevado número de pastores e professores competentes espalhados pelo norte do país, o que contribuiu para a aceleração da passagem da liderança da igreja dos missionários para os pastores angolanos. Em 1957, quatro dos cinco superintendentes de distrito eram angolanos.

Em 1961, iniciou a luta de libertação nacional. Os protestantes instruídos foram vítimas da barbárie colonial. Milhares de metodistas foram assassinados, incluindo pastores e professores. Muitos foram encarcerados e tantos outros desapareceram para sempre. Entre os assassinados fi guraram o Reverendo Sebastião João Rodrigues, vítima dos vigilantes em Bula Atumba, e o pastor Guilherme Pereira Inglês, um pastor reverenciado em Piri e superintendente distrital da região dos Dembos. Ele fora assassinado com mais uma fi lha. Terminamos, cientes de que as 1.179 palavras deste texto são insufi cientes para descrever o que o “Angola Colonial Fotografada por Missionários Metodistas”, que é um valioso documento histórico, traz, pois muito fi cou por se dizer. Aliás, é sabido por todos que uma imagem vale mais do que mil palavras.