A utopia da empregabilidade e a insensibilidade dos empregadores (I)

A utopia da empregabilidade e a insensibilidade dos empregadores (I)

Mal se vive o mês de Dezembro e somos já muitos a proceder ao balanço das conquistas e decepções do ano de 2020, traçando as linhas mestras para o ano seguinte, conscientes que a época natalícia é propícia para grandes ilusões e promessas, como uma fase eleitoral cheia de pactos que, em abono da verdade, são apenas decoração para as nossas esperanças. Para quem está na idade produtiva, é recomendável e oportuno caracterizar, corajosamente, a realidade social em que se insere; desenhar uma táctica para lidar com as adversidades; não ceder à influência deste período colorido, carregado de profecias e boas intenções que não se transformam, de facto, em mais qualidade de vida, comodidade e eficiência nos serviços públicos.

Frases como “o ano novo será próspero”, “haverá mais empregos”, “tudo vai dar certo”, ao fim do ano, tornam-se frustrações! É crível que muitas promessas políticas, como a dos quinhentos mil empregos, ancoraram em algumas garantias dadas por vozes autorizadas do empreendedorismo, pessoas que, em algum momento, sussurraram que podia- se empregar tantos mil angolanos, com políticas certas e o investimento híbrido do erário e do capital privado, um hibridismo onde, como é praxe, do privado vem uma gota e do Estado, um oceano. Porém, muito do que se garantiu não passou de promessa. E este ano teve a particularidade da COVID-19 a justificar o aumento do sofrimento e da precariedade na qualidade de vida em Angola.

Está gerada a ocasião para muitos políticos virem prometer o que outros não puderam dar. E virão com os seus parceiros económicos que buscam lucros acima do que os estudos de viabilidade apontam, até porque numa sociedade maioritariamente jovem, prometer empregos é uma boa jogada, a julgar pela situação academicamente triste e um estranho sistema de avaliação de competências. Convém lembrar que ao longo dos anos, nos estabelecimentos comerciais, dos pequenos aos grandes, verificamos que dos muitos pontos de atendimento (caixa), apenas dez a 15%, de facto, estiveram em funcionamento. Por quê? Porque menos pessoas a trabalhar significa menos dinheiro a gastar com salários e as consequentes responsabilidades fiscais.

Embora que, com base no estudo de viabilidade, estima-se sempre ajudar a comunidade circunvizinha, criar muitos postos de trabalho directos e o triplo de postos indirectos, num abrir e fechar de olhos, as cadeiras ocupadas por gente sorridente no dia da inauguração, ou durante a quadra festiva, vivem maior parte do ano na companhia dum pedaço de papel a informar “ENCERRADO” ou “FORA DE SERVIÇO”. É uma realidade nua e crua, humilhante e difícil de digerir. A comunidade circundante continua com os seus mesmos desempregados; o povo sofre nas filas para o lento atendimento; os poucos funcionários atendem sob stress; o gerente do estabelecimento informa que quem não aguenta pode rescindir o contrato; o “dono do lucro” prepara a próxima inauguração e o discurso que realça quantos empregados tem mas não especifíca quantos despediu, mal justifica as razões de tal medida.

E Angola avança! Será ofensivo dizer que é desaconselhavel que os jovens angolanos projectem a vida baseando- se na utopia da empregabilidade, pela insensibilidade dos empregadores que já dizem que em Angola estão criadas as condições para, em Outubro, contratar pessoas, ditas despreparadas, e despedi-las em Janeiro. Chamam novamente em Novembro e alegam nova incompetência em Fevereiro. Quantos ficam empregados durante dois anos seguidos?! Planos e dedicação em prol do auto emprego, micro-negócios e afins, serão os mais prudentes neste país que quer diversificar a economia, se tal não contrasta com as artimanhas de quem diz promover o agronegócio mas dificulta o acesso às terras aráveis, uma dificuldade que afecta mais aos pobres.

Só um punhado de gente percebe que há incapacidade, a vários níveis, para governar com equidade num Estado que é o maior empregador, maior investidor e, quase sempre, mau gestor. Paradoxalmente, confia-se no sector privado mas falta afinar o sistema de supervisão e mensurabilidade dos resultados conseguidos. Portanto, a mais cínica e silenciosa traição à pátria pode estar a ser perpetrada pelos que dão prova subtil, mas inequívoca, de que o fito no lucro é maior que a sensibilidade de empregar o máximo possível. Não é eficaz empregar trinta e, logo a seguir, despedir quinze. Isso é uma utopia! Se o Executivo entender de obrigar os empresários a ocuparem, como prometido, todos os postos de trabalho, em todos os turnos, em conformidade com o estudo de viabilidade? Virão os especialistas dizer que o governo tem de injectar alguns insentivos financeiros, que poderão servir para mera ostentação? E o país já não precisa da ilusão e euforia desmedida de ninguém.

Para um ano mais produtivo, precisa-se de cidadãos com olhar desiludido, que não se engraxam com empresários e políticos solidários (só) em tempos festivos. Conscientes das armadilhas dos tempos vindouros (porque vem aí o intensificar das propagandas eleitorais), os mais vividos devem alertar aos menos atentos, sobretudo os que não gostam de ler, que entra ano, sai ano, os ilusionistas, os vendedores de esperanças e os colaboradores de ambos, retomam a estratégia de conquistar esta sociedade que em termos de maldades, enganos e aldrabices, já anda bem servida.

Por:Manuel Cabral