É hoje…A miséria da política

Fernando Henrique Cardoso é uma célebre figura no universo político brasileiro. Foi Presidente da República do Brasil, o primeiro país a reconhecer a Independência de Angola logo depois de nos termos desfeito do jugo colonial português. É um intelectual, sendo hoje conhecido no seu país e no mundo apenas por FHC. A Miséria da Política é um dos seus livros. Reúne uma série de crónicas, que foi escrevendo ao longo dos anos, em alguns jornais, apresentando a sua visão sobre o mundo, a política, a educação cívica e a desilusão de quem um dia esteve do outro lado da barricada. Nos momentos de algum inconformismo, este título assenta como uma luva. Tão certo mesmo que alguns se oponham e o sintam tão agressivo. Quem se apercebeu ontem da notícia sobre os supostos 4 milhões de Kwanzas que se dizia que os deputados iriam receber, como bónus de natal, teria mil e um motivos para amaldiçoar os políticos.

É que não se conseguiria compreender que, numa fase desta, em que milhares de pessoas vivem no limiar da pobreza, sem possibilidades de retornarem à vida normal nos próximos meses, alguém se tenha lembrado de trazer a público os referidos montantes. Até ontem, por exemplo, não houve qualquer reacção da Assembleia Nacional, cujo presidente acabou por ser exposto como sendo o beneficiário número um de tal ‘bónus’, quando se sabe que no leque constavam outros tantos parlamentares, pertencendo aos demais grupos políticos que compõem a Casa das Leis. Depois de ter os textos de Fernando Henrique Cardoso, nunca mais me esqueci do título que escolhera para as crónicas ‘Miséria da política’. Um misto de decepções e realizações, principalmente provenientes daqueles que em tempos eleitorais se aventuram em vender sonhos, muitos dos quais irrealizáveis.

Felizmente, ontem, o presidente da bancada parlamentar do MPLA, Américo Kwononoka, deu a cara, refutando o conteúdo do Diário da República posto a circular. Diz o ‘camarada’ que ‘em momento algum a resolução faz referência ao aumento de valores que os textos apontam. Os deputados já recebem um subsídio de natal que não estava previsto na resolução de 2017. Dada a nova gestão financeira actual com toda a parcimónia e austeridade que se exige, aprovou- se a resolução 43/20 como instrumento jurídico que reconfirma o bónus do natal que os deputados vem recebendo’. Ainda bem que o bom senso terá prevalecido. Espera-se que os demais integrantes parlamentares, incluindo os parlamentares da oposição, ajudem a desfazer este equívoco e salvaguardar a imagem que muitos ainda possuem. Caso contrário, não há como não recuar aos anos de 1968, em que os movimentos estudantis em França e noutros países eclodiam, por conta da falta de esperança que viam. E foi com base num destes escritos que FHC preferiu condensá-los naquilo a que chamou de ‘Miséria da política’.