É de hoje…Corrupção é corrupção

A cada dia que passa, convenço-me mais de que o combate à corrupção deve ser uma luta constante. Curiosamente, quando se fala em corruptos e corruptores, a imagem projectada pelo nosso Eu é aquela em que se vê os mais altos funcionários do Estado que, por força de um vício, se enraizou numa maioria que não se vai livrar facilmente da fama. Mas, além destes, há uma outra corrupção que se estende a uma velocidade quase que furiosa pelos sectores intermédios, transformando muitos agentes do Estado em partícipes de um processo que acabou por colocar os angolanos também no ranking das organizações internacionais.

Só assim se percebe que, anteriormente, para se obter determinados documentos, o processo assemelhava-se a autênticas maratonas, em que os cidadãos, por exemplo, para conseguir um bilhete de identidade, tinham que madrugar, conseguir um alvará precisavam de cunhas e lugar numa escola pública, igualmente. E, quando assim não acontecesse, a salvação era recorrer aos ‘esquemas’ que, num ápice, tornavam o inferno de uns em paraíso e no amargo funcionário da Administração Pública no mais dócil quadro existente, às vezes até merecedor de reconhecimento pelo momentâneo desempenho.

Muitas vezes não se trata de questões de logística ou administrativa que emperram o funcionamento normal das instituições, mas sim truques criados para que se dê a perceber aos cidadãos que a única forma de se conseguir um documento ou resolver um determinado problema passava, necessariamente, por ‘molhar’ a mão do agente público. Como dizem alguns, a dado momento da vida deste país, a corrupção tornou-se uma instituição, havendo poucos indivíduos que tenham resistido aos seus encantos nem aos prazeres que os seus benefícios proporcionam, mesmo que seja de forma temporária. Tal como a alta corrupção, que regularmente enche as páginas dos jornais, uma outra alastrou-se a nível intermédio também de forma perigosa.

É a corrupção da gasosa, dos saldos e até dos outros favores que alguns também não se dão conta que deve ser combatida do mesmo modo que se está a travar a dos grandes tubarões. É por isso que vemos hoje directores provinciais, administradores municipais, comunais e outros altos quadros do aparelho do Estado a serem chamados para responderem na justiça. Para muitos, o que contava era apenas aquilo a que chamam a grande corrupção. Mas não. Em pequena ou grande escala, corrupção é corrupção.

E nada mais. Os danos acabam por ser quase semelhantes, porque colocam em causa os superiores interesses do Estado e prejudicam o desenvolvimento do país. Quando se vê, por exemplo, que uma administradora municipal tenha tido o desplante de nomear filhos, filhas e negociar com o marido, na administração em que dirige, então o problema é muito grave. Aprendeu-se muito bem com o catecismo dado em todos os níveis de ‘‘ensino’’. Isto é, desde as administrações comunais às principais instituições do Estado.