É de hoje… Ritual de Dezembro

Todos os anos parece ser a mesma coisa. É uma espécie de culto em que as autoridades são obrigadas a tecer algum comentário para não ficarem mal na fotografia. A ideia é demonstrar algum trabalho perante o povo, que acaba sempre por ser a maior vítima deste aproveitamento cíclico. Quando se pensava que se pudesse jogar na antecipação, criando condições para que os especuladores não se aproveitassem da quadra festiva para buscar margens de lucros superiores às legalmente estabelecidas, nota-se o inverso.

Apesar das ameaças, ainda têm sido os comerciantes a ditarem todas as regras de jogo. Afinal, aumentando, sobretudo, a procura e com uma oferta diminuta, condicionada até por entraves que a própria importação em tempo de pandemia proporcionou, as desculpas existirão sempre para que se estique a corda. Mas o prejudicado será o pacato cidadão, cujo salário continua a encolher, infelizmente. O caricato em tudo isso é ver o coro em que se entregam as associações de defesa do consumidor e outras entidades públicas.

Vimos e ouvimos por estes dias governadores provinciais, directores de diversas repartições públicas e até entidades religiosas a apelarem aos empresários para que tenham dó do pacato cidadão. Essas ameaças não são alheias.

Faz parte do guião, num filme só exibido em Dezembro. Era assim durante muito tempo, quando governadores faziam o mesmo em relação aos empreiteiros que se atrasavam na entrega das obras. Com o passar do tempo nos apercebemos que as ameaças tinham de tudo menos qualquer seriedade, porque muitos destes gestores públicos andavam mancomunados com as respectivas empresas de construção, em que alguns até eram representados por laranjas.

O tempo encarregou-se de mostrar obras inacabadas, empreiteiros que fugiram e não cumpriram sequer com os contratos, mas encaixaram largos milhões de dólares nas suas contas. Neste tempo de mudança de paradigma, é importante que os exemplos sejam outros para se moralizar ainda mais a sociedade. Puna-se os prevaricadores e não se faça das ameaças, sobretudo em Dezembro, um ritual de caprichos.