Literatura Angolana – Uma Abordagem Conceptual

Literatura Angolana – Uma Abordagem Conceptual

É do nosso conhecimento de que o esqueleto da literatura angolana tem as suas bases alicerçadas na oratura. Porém, para um denominador comum, mesmo que não seja de todo consensual, levantamos as seguintes retóricas: quem é o escritor angolano? O que se pode considerar por/de literatura angolana? E quem legitima o que é literatura angolana?

Todavia, o facto de a literatura, enquanto instituição angolana, carecer ainda de discussão participativa, inclusiva e geracional, é fundamental que o consenso pré-concebido ou de/o corpo trancado não seja o fio condutor para aferição do que é literatura angolana. Assim sendo, subentendese que as portas institucionais da literatura angolana sejam/estejam abertas aos outros/novos saberes científicos, suas variantes, que concorrem para que a mesma seja uma instituição de facto, inerentes à sua existência como modificador operante, actuante e como um meio de diálogo sistematizado e uniformizado. Dito isto, aferimos que, em função da historiografia da literatura angolana, a mesma não se circunscreve, simplesmente, às obras produzidas por escritores angolanos.

A proposição aludida implica que as literaturas não são feitas, puramente, de escritores nativos, a título de exemplo, Castro Soromenho e Heli Chantelan* são paradigmas dos quais as nacionalidades biológicas e as literárias não têm que, necessariamente, coincidir. No período colonial, a literatura angolana interpreta o contexto coercivo de realidades dicotómicas: entre o colonizador e o colonizado; entre o nativo e o sipaio; entre o assimilado e o analfabeto real/funcional. Uma literatura que, na sua fase inicial, tem os jornais como canal de suporte de difusão das suas manifestações fundamentadas numa estética interventiva, em que o expoente máximo é a palavra pré-concebida.

Numa leitura lexicográfica, por literatura angolana, entendemos como sendo o conjunto de expressões de um povo manifestado por diferentes agentes literários num determinado contexto e sequencial, sobretudo por escritores que contribuem de forma significativa para o alicerce, crescimento e desenvolvimento da mesma. Portanto, tal factor contexto, em função de cada realidade, não retira a perspectiva transcendental intrínseca à literatura.

A forma como a literatura escrita emerge em Angola se afasta, substancialmente, da função primária defendida por Jackobson. Tal factor assimétrico, na apresente abordagem, ao invés de criar ilhas, acaba por abrir espaços para a coabitação entre a estética objectiva e a subjectiva no panorama da literatura angolana, dando corpo à manifestação literária assente na estética interventiva, no período colonial. Posteriormente, após independência, há uma literatura que interpreta os ideais da dinâmica da vanguarda, das correntes literárias, do labor plurissignificativo da palavra e, sobretudo, da ruptura reflectida numa malha de relações bidimensionais entre a estrutura e a semântica cada vez mais plurissignificativa.

Portanto, relativamente à estética, na Literatura Angolana, há uma arbitrariedade “própria” projectada pelo signo linguístico e dicotomia simbólica na forma como se lêem os factos sociais. Daí que, por exemplo, o seu valor semântico tem que a ver com os quadros sensoriais de cada comunidade linguística. Logo, não estaríamos a incorrer a erros de conceito ou de conteúdo se olhássemos ou analisássemos a estética da literatura angolana na perspectiva do quadro social cognitivo e sensitivo angolano. É um dado adquirido de que a literatura angolana necessita de estudos/ discussões mais apurados/as, sem preconceito as já existentes, à margem de camisas-de-forças de crenças, de ideologias, de regionalismos e de raças.

Por outra, é pertinente que se reconheça que o Roteiro da Literatura Angolana, embora seja um manancial importante para a historiografia da Literatura Angolana, de Carlos Ervedosa, não sirva de conformismo nem de estagnação sobre os estudos da mesma. Em nosso entender, portanto, a literatura angolana é a que é escrita a pensar em Angola; em que os tecidos re-criativos estejam inerentes ao imaginário angolano, factor que não estanca que o sujeito escritor possa recriar outros imaginários, o valor simbólico intrínseco ao quotidiano das suas populações e seus modus operandis. Contudo, o prescrito na presente abordagem é de todo um discurso inacabado. *Escritor e Crítico Literário