É de hoje…Desafogo

Pode parecer uma história inusitada. Mas contou um dia um amigo, durante um programa de rádio em que participamos que, quando o Presidente José Eduardo dos Santos visitou pela primeira vez as obras da Centralidade do Kilamba, no grupo em que esteve presente a discussão girou em torno dos preços que seriam cobrados por cada apartamento.

Referia-se ao valor da compra na totalidade e a renda resolúvel. Lembra o amigo que em alto e bom som um antigo dirigente terá sugerido um valor tão alto que lhe gerou repulsa. Nem tanto pelo montante em si, mas porque este responsável, que ocupara funções de relevo no Estado angolano, dissera que não acreditava que existisse no país muita gente que não possuísse, nas suas contas bancárias, qualquer coisa como 50 mil dólares norte-americanos.

Para muitos angolanos, o facto de se ter nascido num país grande, belo e rico, como pudemos ler desde os primeiros livros que tivemos à mão, fazia também de cada um dos seus cidadãos figuras endinheiradas e com capacidade para suportarem os valores impostos em determinado momento por uma ‘casta’.

A realidade mostrou o contrário, uma situação agravada pelo Estado excessivamente providencialista que emergiu após a independência. Do leque de indivíduos, entre funcionários públicos, privados e outros quadros que tiveram acesso às centralidades, poucos são os que desde a primeira hora se prontificaram em efectuar os pagamentos das rendas.

Primeiro, por causa dos valores altos atribuídos aos apartamentos. Segundo, porque, além da falta de cultura de muitos, assim como os serviços atabalhoados de quem melhor poderia servir os cidadãos, muitos se viram privados dos seus postos de trabalho e, consequentemente, dos rendimentos.

Felizmente, o Executivo vem repor um pouco da verdade, distante daquele dirigente que pensava que cada um dos angolanos tivesse, no mínimo, 50 mil dólares, quando se sabe que existem até os que vivem com menos de um dólar por dia.

A nova tarifa de renda já é mais realista, exequível e, certamente, irá servir de alento para muitos angolanos que se viam com uma corda ao pescoço. Trata-se, na verdade, de uma prenda de fim de ano para que muitos comecem com o pé direito, depois de um ano de 2020 difícil.