É de hoje… Kissassunda

É de hoje… Kissassunda

Sete de Janeiro de 2020. Eram 9 horas e 46 minutos quando recebo do Mais Velho Domingos Kiassekoka uma relação de companheiros seus no partido que julgava necessário serem entrevistados para contarem as suas versões sobre o movimento que levou a independência, assim como os momentos posteriores à independência. Além do nosso decano do jornalismo, que também constava da lista, foi-nos sugerido outros nomes, incluindo o de um alto responsável da FNLA que se encontrava adoentado.

Uma das principais referências, que o malogrado Mais Velho Kiassekoka quis que alguém entrevistasse antes era precisamente o general Ludy Kissassunda, fi gura incontornável do nacionalismo angolano e do pós-independência. Amado e odiado por outros, certamente que tinha a sua versão em relação a tudo que lhe era imputado, o que fez com que se movimentasse determinadas fi guras nos corredores para que o encontro fosse possível.

Mas nem com isso. Depois de vários telefonemas, há um ano, curiosamente num dia 7 de Janeiro, como atesta as mensagens ainda em nossa posse, eis que o Velho Kiassekoka disparou uma mensagem, que nos acabou reencaminhada igualmente: ‘Bom dia General Ludi. Tenho tentado lhe contactar, mas sem sucesso. Está em Luanda ou na aldeia? Eu não desisto do meu pedido de escrever as suas memórias e o director adjunto do Jornal OPAÍS vai lhe contactar. FELIZ ANO NOVO.

Kiassekoka’ (SIC). Um ano depois, nem a entrevista foi alcançada nem o ‘intermediário’ e o entrevistado se encontram mais em vida. Médico e homem de cultura, Kiassekoka viria a falecer em Portugal, em Maio do ano passado, ao passo que seis meses depois seria a vez, no mesmo território, do então comissário de Malanje, governador do Zaire e antigo homem-forte da segurança após à independência.

O MPLA, partido em que ambos militavam, descreveu o primeiro, Kiassekoka, como sendo alguém que ‘como profissional de saúde, a sua carreira ficou marcada pela participação na criação da 9.ª Região PolíticoMilitar, como chefe dos Serviços de Assistência Medico-Militar das FAPLA, para além do exercício dos cargos de delegado provincial da Saúde em Malanje e director nacional de Saúde Pública’.

Sobre Kissassunda: ‘um militante abnegado e instransigente, profundo conhecedor do percurso histórico revolucionário de Angola e do MPLA’. Talvez por causa da saúde já frágil, como vaticinava o Mais Velho Kiassekoka, não terá sido possível o encontro que possibilitaria ouvir a sua história e uma ‘palavrazinha’ sobre um dos períodos mais controversos e sombrios da história do país: o 27 de Maio de 1977.