É de hoje…Afinal houve manifestação?

Apesar de ter sido anunciada com alguma antecedência, poucos se terão apercebido da realização, ontem, em Luanda, de mais uma manifestação em que os ‘revús’ exigiram, entre outras coisas, a melhoria das condições de vida e a alternância política.

Sem menosprezar as reivindicações apresentadas pelos manifestantes, sobressai o facto de poucos terem notado mais uma concentração de jovens que saíram à rua, alguns meses depois das outras investidas em que os ecos quase que só se fi zeram sentir por causa da reacção um tanto quanto atabalhoada de quem tinha a missão, única e exclusiva, de proteger os cidadãos e velar para que nada ultrapassasse o normal.

Sendo um direito constitucionalmente consagrado, a realização das manifestações, desde que não descambe para a violência ou acções que coloquem em perigo a vida dos cidadãos, transeuntes e outros, em momento algum se constituirá num perigo. Nem mesmo que as causas sejam vistas por uma maioria como inapropriadas.

Ontem, uma das razões avançadas, esteve associada ao facto de o MPLA estar desde a independência a comandar os destinos do país. Não há qualquer anomalia em exigir isso. Aliás, pressionar as autoridades é um sinal que qualquer sociedade civil deve fazer, do mesmo modo que também deve perceber que qualquer alternativa política em Angola só será possível com base em resultados que saíam das urnas.

Mais do que aqueles que se propõem em realizar as manifestações, fica evidente que o papel da Polícia Nacional acaba por ser mais preponderante no final. As manifestações acabam por ser um direito semelhante aos demais, em que ninguém pode pintar de vermelho ou preto mesmo que não goste, quando não há excessos ou não se caía na velha ladainha de transformar qualquer cidadão em herói.

Se, porventura, tivesse havido alguma situação de violência, hoje mesmo os noticiários nacionais e internacionais iriam alterar a agenda. O que seria normal. Sem dúvidas. Porém, não tendo havido situações contrárias, nem o próprio Executivo saiu beliscado.

Alguns dirão que este texto vai mostrar a algumas pessoas que ontem houve manifestação. Mas, ao contrário do barulho de outros meses, a de ontem foi mesmo silenciosa.

Pode-se até usar a rua como palco, mesmo que as questões a apresentar não sejam as mais adequadas, mas as repercussões no país estiveram mais associadas à forma de actuação de quem deveria proteger do que propriamente daqueles que usaram um direito constitucional, como as manifestações.

Só por isso vimos várias organizações no país e no exterior a achincalharem o Executivo e os seus departamentos. Poucos serão os angolanos que se terão apercebido de que ontem Luanda foi brindada com mais uma manifestação.