“Formar um médico em Cuba custa mais de 22 mil dólares por ano”

“Formar um médico em Cuba custa mais de 22 mil dólares por ano”

Milton Chivela achou necessário salientar, por isso, que Cuba é, actualmente, entre os países onde se tem bolseiros, o país mais caro para se formar um estudante bolseiro.

“É mais caro formar um bolseiro em Cuba do que na Rússia ou em Portugal, porque o valor da formação nessa nação caribenha subiu muito, actualmente”, aclarou o gestor, realçando que é nesse país do Caribe onde há mais de metade do universo de bolseiros angolanos.

Porque, de acordo com o próprio, depois da Independência de Angola, em Novembro de 1975, Cuba era o país que dava abertura à pátria angolana para se poder enviar o número de estudantes que fossem do seu interesse, além de, no mesmo período, ter-se apostado muito na formação de médico.

O director que assegurou ter-se enviado muitos candidatos para frequentarem o curso de medicina e de outras áreas da saúde, em Cuba, referiu que hoje, Angola, tem muitos quadros formados lá.

“Só no ano findo de 2020, regressaram de lá 500 estudantes, entre os quais, aproximadamente , 170 médicos”, detalhou o responsável, tendo explicado que, nesse ano, o país recebeu muitos médicos com qualidade inquestionável, embora ele e a sua equipa sejam apologistas de que, para hoje, uma licenciatura em medicina já não seja suficiente.

O país precisa de especialistas, segundo o entrevistado, que lamentou o facto de Angola ter uma dívida considerável com as instituições em Cuba.

Dívida que reduz envio de bolseiros

Sobre a dívida, o director INAGBE informou que a mesma não está a permitir a sua instituição avançar com a especialidade dos médicos licenciados que se destacam, ao longo da sua licenciatura.

“Porque a intenção é de continuar a apostar na formação daqueles estudantes que se destacam ao longo da sua licenciatura, para as especialidades que muito precisamos aqui. Mas, com essa dívida, vamos ter de recuar, enquanto não a saldamos”, sentenciou Milton Chivela, tendo prometido que, tão logo se dê cobro a essa situação, certamente poderão olhar novamente para Cuba com intenção de formar especialistas, no nível de mestrado ou mesmo doutoramento.

Milton Chivela reconheceu ser muito difícil encontrar-se parceiros para formar especialistas, porque cada país tem as suas políticas para se poder frequentar cursos de especialidade médica.

Para se acabar com essa dívida, o INAGBE já sentou com o seu parceiro local, que é o Ministério das Finanças, soube este jornal do director Milton Chivela, que revelou estarem a trabalhar com os outras instituições homólogas de Cuba, designadamente, o Ministério de Educação Superior e os Serviços Médicos Cubanos em Cuba, que é a organização responsável pela gestão dos cursos ligados às áreas de saúde em todas as universidades de Cuba.

“Então, a dívida que temos são com essas duas instituições cubanas, mas a maior parte é com o segundo estabelecimento, já que o grande número de estudantes que temos, em Cuba, são de cursos ligados à medicina”, detalhou o líder do INAGBE, tendo adiantado, igualmente, que a instituição que dirige reforçou os trabalhos com o Ministério das Finanças, a ver se os conseguem apoiar, a fim de que se possa liquidar essa dívida.

Amortização enquanto dura o pagamento

Não havendo, até antes de Dezembro de 2020, cobertura total para se acabar com a dívida avaliada em 29 milhões de dólares, o Instituto Nacional de Bolsas de Estudo engendrou o processo de amortização mensal da mesma.

Actualmente, ainda não se fez a conciliação, mas, provavelmente, deverá baixar para cerca de 27 milhões, segundo garantiu Milton Chivela, que considera a política de amortização um bom passo andado.

“Estamos a sofrer uma certa pressão por parte dos nossos parceiros cubanos, que precisam, mas, dentro dos laços que existem entre as duas nações, temos trabalhado porque esse passivo é referente apenas à propina dos anos 2018/19 e 2019/20 e, agora, vai entrar na dívida o 2020/2021”, esclareceu o dirigente que pressupõe que este número vai entrar também na dívida, aumentando, deste modo, a fatia. Ele disse que tem de haver um recurso, portanto, o Ministério das Finanças.

“Porque, senão, com a quota que nos é disponibilizada aqui dá para pagar o complemento de bolsa e as propinas em países onde temos esses encargos e cumprir com outras obrigações”, referiu Milton Chivela, que considera a cifra como insuficiente para se ir amortizando essa dívida.

O director do INAGBE admitiu que se corre o risco de, possivelmente em 2024, já não terem nenhum estudante em Cuba, embora, no referido ano, ainda venham a ter uma dívida existente, sendo algo que ele e a sua equipa pretendem evitar, a todo custo, por não quererem tirar de lá os estudantes.

“Não é ético conseguirmos tirar os nossos estudantes de lá e não conseguirmos pagar a dívida, mas está-se a fazer todos esforços possíveis”, frisou.

O Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação (MESCTI) tem também interagido muito com o Ministério das Finanças para se poder chegar a um meio-termo e poder-se sair deste imbróglio, apurou este jornal do homem que dirige a instituição que gere as bolsas de estudo em Angola .

Recordando que o país começou a ter essa dívida no ano lectivo 2018/2019, sendo que, na altura, já se tinha começado a fazer essa amortização, lamentou o facto de, nessa ocasião, o processo ter ocorrido sob um valor fixo, porque mensalmente nos é atribuída uma quota para os encargos que têm com o exterior.

“Há períodos que eu não tenho mesmo encargo. Eu posso pagar propinas, num mês, para, no subsequente, já não ter esse dever, de modo que o recurso restante sirva para amortizar a dívida”, revelou a estratégia da sua instituição.

“Se, no mês que paguei a propina, possivelmente, consegui amortizar cem mil, no mês seguinte já consigo mais de cem mil, por não ter mais o dever de cobertura de propinas”, reforçou Milton Chivela, tendo garantido que estão a trabalhar no sentido de ver dirimida a situação da dívida. Embora esteja a receber muitos incentivos que indicam que a sua equipa já fez muito, ele sente que o exercício de cobertura ainda não é suficiente.

“Porque, a cada ano que passa, essa obrigação vai aumentando. Por exemplo, vai começando o 2020/2021, e já é, para nós, um novo comprometimento”, exemplificou o interlocutor do jornal OPAÍS, que considera ainda ser do interesse de Angola continuar a formar quadros em Cuba, por ser um dos poucos países que dá essa abertura.

Nos outros, as políticas são muito mais restritas. Por isso, resta ao pelouro de Milton Chivela cuidar dos cubanos envolvidos nessa parceria educativa, trabalhando na dívida para com eles, já que a pretensão de formação de especialistas constitui um interesse no país tido parceiro- chave.

Travão no envio de bolseiros “Por enquanto, não se prevê mandar mais bolseiros para Cuba. Não nos atrevemos aumentar o compromisso”, começou por dizer o gestor, que lamentou pelo facto de a sua instituição ter, recorrentemente, a recusar a solicitação de médicos que se destacam, que terminam com um diploma de ouro, como se designa em Cuba, para continuarem com a especialização, depois da licenciatura.

Entretanto, deixou patente que aqueles cujos encarregados poderem, financiam os estudos dos mesmos para eles adquirirem a especialidade.

Disse estar consciente de que, todos os anos, há sempre estudantes angolanos que merecem um apoio para dar continuidade à sua formação.

“Porque lá fora, há reconhecimento por parte das instituições onde eles passaram. Há uma estudante, na Rússia, que terminou como a melhor estudante da universidade, num curso técnico de petróleo. Temos outros noutros países”, elucidou.

Infelizmente, ele e a sua equipa do INAGBE não conseguem dar o apoio de continuidade a esses estudantes, salvo raras vezes pelos programas de cooperação ou projecto 300.

Projecto 300, socorro para mestrado

Trata-se de um projecto que visa enviar para fora do país estudantes que são admitidos num concurso de bolsas de estudos para o exterior, sobretudo em cursos técnicos, como é o caso da área de medicina e/ ou saúde.

“Agora, com esse projecto 300, conseguimos uma parceria com a Universidade de São Paulo (USP), no Brasil, mas há encargos e não está nada barato, pois, mensalmente é para se desembolsar dois mil e 500 dólares para cada estudante”, desabafou o responsável.

Milton Chivela considera muito alto, porque, num ano, se estaria a falar de 30 mil dólares, para formar um estudante, sendo apenas uma quantia destinada única e simplesmente para se pagar propina.

“Depois , ainda temos de olhar para o complemento de bolsa, sendo que um estudante de especialidade vai receber um subsídio de mil e 500 dólares. Então, mensalmente, com um estudante de especialidade, no Brasil, nós vamos ter um encargo de quatro mil dólares”, concluiu.

O responsável agradece o facto de se continuar a apostar na formação de quadros, porque não tem sido um exercício fácil.

“Mas, ainda assim, anualmente, o governo disponibiliza recurso para nós continuarmos a formar os quadros que temos”, salientou.

Finalmente, Milton Chivela achou oportuno esclarecer que, com Cuba, não trabalham no âmbito das ofertas formativas, pelo facto de as relações formativas com esse país constituir um investimento totalmente do Governo angolano.