Criança violada pelo pai pode ficar estéril

Criança violada pelo pai pode ficar estéril

A médica Mriana Rol Miguel e o psicólogo clínico, Nvunda Tonet, analisaram, em declarações a OPAÍS, a situação da menina de 15 anos de idade que diz ter sido abusada sexualmente durante quatro anos pelo seu progenitor, de 31 anos. Ambos aventam a possibilidade de ela vir a ter consequências

Mariana Miguel disse que em função do aborto e da curetagem a que a adolescente foi submetida, depois de ter sido abusada sexualmente pelo próprio pai, há probabilidade de ela vir a não poder fazer filho..

Em consequência da agressão a que os órgãos dela sofreram, a especialista afirma que pode vir a se tornar numa mulher infértil ou com dificuldade de alcançar, embora desconheça como e quem fez a curetagem.

“Não soubemos se realmente fez de maneira correcta. Se não perfurou o útero ou não deixou nenhuma sequela. Uma das consequências da curetagem é mesmo a infertilidade”, frisou, acrescentando que “então existe a probabilidade de que isso possa acontecer e, também, pode ter distúrbios menstruais fruto da mesma curetagem”.

A médica disse que há necessidade de a vítima ser acompanhada por um psicólogo e um médico ginecologista para, através de exames, aferir se não há alguma lacuna e infecção.

Por outro lado, explicou que as crianças que sofrem violência deste género podem não desenvolver, uma vez que provocam danos físicos, psíquicos e sociais. Para superar tais lacunas, urge a necessidade de a sociedade apoiar e não deixar essa responsabilidade a cargo unicamente de psicólogos e, principalmente, da família.

“A família, como tal, deve tratar de inserir a criança na sociedade da melhor maneira possível. E, uma das melhores maneiras, é afastar o agressor ou a vítima uma da outra”, frisou.

No entender da médica, nestes casos as vítimas têm a psique muito afectada e há possibilidade de ela ao ver o seu algoz tentar se defender de alguma maneira. “É assim que ocorrem os homicídios. A família deve conversar muito com a criança e tentar inseri-la na sociedade. Não afastá-la de outras pessoas e, se for possível, a acompanhar ao psicólogo, ao médico ginecologista”, disse.

Em seu entender, em função dos inúmeros casos do género que têm ocorrido na sociedade, ao se tomarem decisões para se inverter esta tendência, deve se ter em conta a necessidade de se investigar as motivações dos prevaricadores. A especialista aventa a possibilidade de serem pessoas com distúrbios comportamentais que, se calhar, as próprias famílias desconhecem.

Traumas emocionais são visíveis

Já o psicólogo clínico Nvunda Tonet apontou o trauma, o desenvolvimento de problemas emocionais relacionados com a personalidade e perturbações emocionais como algumas das consequências psicológicas que a vítima pode ter.

“Sempre que há um incidente que mexe com as emoções da pessoa, principalmente violação, ela não volta a ser a mesma. Então, os aspectos emocionais como a questão do trauma e da alteração da atitude, do comportamento e da conduta são visíveis”, frisou, sublinhando que tais alterações podem ser constatadas na forma como ela interage.Quanto à omissão da mãe da vítima, que sabia que o marido abusava sexualmente da filha, o também psicoterapeuta sexual esclareceu que normalmente nas famílias, onde ocorrem casos de violência e maus-tratos, desenvolve-se um sentimento de protecção mútua. Eles, os parentes, são os primeiros a encobrir com medo e vergonha da exposição da família.

“Do quê que as pessoas vão pensar. Então, há um sentimento de protecção mútua, face ao evento que acontece. Neste caso, a violação ou os maus-tratos”, explicou, sublinhando que este não é primeiro caso, sendo que em 2019 ocorreu um semelhante.

O padrão dos violadores sexuais

Baseando-se em estudos realizados a respeito, Nvunda Tonet explicou que nos casos em que o assunto é de domínio das famílias, o padrão é sempre o mesmo: ficam com medo do que as pessoas vão dizer e adiam a exposição do abusador.

Fazendo uma análise superficial do que pode estar na base de tais actos, o psicólogo clínico afirma existirem condições prévias, como a presença de perturbações de personalidade, psiquiátrica ou de parafilia. “É claro que estamos a ver isto do ponto de vista superficial. Analisando o indivíduo ao pormenor pode se chegar a outras conclusões”, acredita

Nvunda fez também análise sobre o facto de a mãe ter levado a própria filha para abortar uma gravidez de três meses, de uma criança que poderia ser neto e enteado ao mesmo tempo, consciente de que estariam a correr risco de vida. “Percebe-se claramente aí a Síndrome de Estocolmo, em que a vítima se identifica com o seu agressor. Esta mãe acabou por viver isso”, explica

Recordou que há também que se ter em conta o aspecto cultural que a levou a conviver com essa situação. “Essa mãe tem receio de perder o marido, de ser uma mulher solteira, abandonada e que vai criar os filhos sozinha”. O agressor, identificado por Fábio Luvoza, confessou, à imprensa, que abusava da filha há anos.