É de hoje…A lavra e o cofre

É de hoje…A lavra e o cofre

Dois dos mais destacados bispos católicos da actualidade devem ser, modéstia a parte, o de Cabinda, Dom Belmiro Chissengueti, e o do Luena, Dom Tirso Blanco. Independentemente das responsabilidades que cada um deles possui, nas dioceses que têm às mãos, ainda assim lhes tem sobrado tempo para regularmente interagirem com os angolanos, independentemente da classe política, económica e social em que se encontram.

Quando se trata de demonstrar infra-estruturas inacabadas, os dilemas da vida no campo, a falta de estrada, Dom Tirso Blanco retrata como ninguém o dilema por que passam os ‘seus’, isto é, os habitantes das Lundas Norte, Sul e Moxico.

As questões ligadas à democracia, política pura, combate à corrupção e às autarquias parecem ser a ‘praia’ de Dom Belmiro Chissengueti, levantando o véu sobre os problemas que ainda enfrentamos e apontando algumas possíveis soluções.

Normalmente, quando um destacado líder religioso, entre os quais os bispos católicos, se pronunciam, os seus argumentos servem de reflexão e acabam mesmo por proporcionar algum debate.

Foi o caso de uma afirmação que se atribui a Dom Chissengueti, segundo a qual se deveria analisar a atribuição de cargos públicos de destaque a entidades que possuem dupla nacionalidade.

Por mais que não se admita publicamente, a questão da dupla nacionalidade, sobretudo por parte de responsáveis do aparelho do Estado ou até mesmo de organizações políticas, há muito que deveria merecer da nossa sociedade uma reflexão sobre possíveis benefícios e os malefícios.

O constante recurso ao continente europeu, asiático e americano, sobretudo, por parte de muitos antigos gestores públicos e ex-governantes angolanos, que se encontram acossados pela justiça, demonstra que nem sempre se serviu este país nos moldes em que os cidadãos comuns esperavam.

Como alguém dizia, não se pode servir dois senhores da mesma maneira. Sendo por isso embaraçoso, por exemplo, esperar de um diplomata, ministro ou até mesmo secretário de Estado uma postura de independência num hipotético conflito em que estejam envolvidos os dois países em que está ligado.

Para muitos, está mais do que evidente que Angola, por exemplo, foi a lavra e os países de adopção os cofres. Não é em vão que quando se sentem intimidados pela justiça, mesmo de forma ligeira, a primeira coisa que fazem é rumarem para os locais onde sempre enviavam o dinheiro e os segredos que acumularam ao longo dos anos.