Carrascos da jornalista da RNA julgados sem o autor dos disparos

Carrascos da jornalista da RNA julgados sem o autor dos disparos

O caso de Alice Nádia Marcelino, jornalista da RNA morta à tiro, em casa, no dia 29 de Abril de 2020, após ter surpreendido dois cidadãos que tentavam roubar a placa electrónica da sua viatura, começou ontem a ser julgado no Tribunal Provincial de Luanda. O grupo de acusados é composto por quatro elementos, mas o que terá feito o disparo mortal é pronunciado nos autos como prófugo

Quatro elementos, até então amigos do copo e do cigarro, como um deles fez questão de declarar em tribunal, que se encontram “na casa” dos 20 (abaixo dos 25 anos), decidiram, desde o início do ano 2020, passar a roubar placas electrónicas de viaturas e, consequentemente, comercializá-las no mercado dos Correios.

Até antes do terceiro roubo ter dado errado, por terem vitimado mortalmente a jornalista Alice Marcelino, a vida que levavam corria bem, onde um conseguia sustentar os seis filhos que tem e os outros os vícios e compra de roupas, com o dinheiro das placas roubadas.

No dia em que cometeram o crime de homicídio, António de Almeida, mais conhecido por Da Lua, de 22 anos, o pai de seis filhos, pertenceu à dupla que escalou o muro da casa de Alice, juntamente com o cidadão identificado apenas por Soba (até então prófugo), tendo este último transportado uma arma do tipo AKM, de cano serrado.

Apesar de ter estudado até a 2.ª classe, o mesmo não sabe ler nem escrever (e desconhece a data do seu nascimento). Da Lua tem uma vasta experiência em desmontar placas electrónicas, porque já vem a roubar este importante dispositivo das viaturas desde 2017. Eis a razão que escolheu estar na “dupla de ataque”, enquanto os outros dois elementos (Evander Justo “MT” e Alison Domingos Manuel “Milibu”) ficaram na parte de fora a controlar o movimento da rua.

António de Almeida “Da Lua” disse que, tão logo partiu o vidro da viatura da jornalista, com uma vela de motor que transportava no bolso para este fim, a jovem apareceu na janela e o seu amigo, o Soba, terá deduzido que era um homem e que estava armado, por isso reagiu fazendo disparo. Alice foi atingida na região esquerda do peito e, apesar de ter sido socorrida para o Hospital Américo Boavida, perdeu a vida a caminho desta unidade sanitária.

Depois de feito o disparo contra a vítima, os dois indivíduos voltaram a escalar o muro e, já na saída, Soba volta a fazer um tiro no ar. Os quatro puseram-se em fuga, sem levar a placa da viatura Kia Rio de Alice. Fora, Soba foi repreendido por Alisson Domingos Manuel “Milibu” por ter reagido com disparos, quando a intenção do uso da arma era a de amedrontar [e não matar] as vítimas. Milibu ficou chateado, também, por ter sido ele quem conseguiu a arma e a mesma tinha pouca munição (4), pelo que estavam a fazer uma “gestão minuciosa”. Como foi que conseguiu a arma? Roubou-a de um segurança privado enquanto adormecia no seu turno.

Dia de arrastão “menos” produtivo

Naquele dia, o grupo estava a prever fazer um arrastão de placas electrónicas, pois tinham projectado fazer um segurança de um parque de estacionamento de refém para açambarcarem os carros, como declarou o réu Milibu.

A arma de cano serrado, evidentemente, serviria para “amedrontar” o segurança, de modo a não reagir. Perguntado se sabe manipular a arma, Milibu, de 20 anos, que só estudou até a 8.ª classe, respondeu positivamente, tendo acrescentado que aprendeu vendo nos filmes.

Milibu foi detido na via pública, quando ia ao encontro de um amigo identificado apenas por Morenice, para lhe vender a arma, dias depois de ter tomado conhecimento de que dispararam, durante a tentativa de roubo de placa, contra uma jornalista. A arma seria vendida ao preço de 50 mil Kwanzas. Ainda sobre preços, importa frisar que os réus declararam que as placas roubadas eram vendidas a três indivíduos dos Correios, identificados apenas por Barata, Avô e Gibrile, ao preço que variam dos 35 aos 50 mil Kwanzas.

Ainda sobre preços, importa frisar que os réus declararam que as placas roubadas eram vendidas a três indivíduos dos Correios, identificados apenas por Barata, Avô e Gibrile, ao preço que variam dos 35 aos 50 mil Kwanzas.

Os réus vêm pronunciados e acusados pelos crimes de homicídio voluntário, posse ilegal de arma de fogo e associação de malfeitores. Embora os autos venham a pronunciar quatro elementos, apenas três têm ligação directa com o crime de que vêm acusados, faltando o jovem que fez os disparos, o Soba (que estava prófugo e agora o tribunal tomou conhecimento que se encontra detido na Comarca de Viana).

Assim, há um quarto elemento que está a responder em tribunal, no grupo dos jovens acusados da morte da jornalista, no lugar que supostamente seria do Soba. É visto diante dos outros três réus como um autêntico desconhecido.

O “comparsa” que ninguém conhece

Os três réus, nomeadamente Da Lua, MT e Milibu, declararam, tanto na instrução preparatória, quanto no tribunal, que não conhecem o co-réu José Nunda de Almeida, nunca o tinham visto antes e, evidentemente, não esteve no dia do assalto às placas

“Sinceramente, senhor juiz, não sei como ele [José Nunda de Almeida] veio parar neste processo. O Soba é quem devia estar aqui porque ele é quem fez os disparos”, disse Milibu, o dono da arma, na instância do juiz da causa.

José Nunda de Almeida está a ser acusado apenas do crime de associação de malfeitor, crime este que o seu advogado, Damião Dombe, pede que o absolvam, por não existirem provas que o incriminem, porquanto este indivíduo não tem nenhuma relação com os outros réus e nem sequer os conhece.

O causídico apresentou a sua contestação alegando que o réu não faz parte de nenhuma associação de malfeitores, pois apenas conheceu o jovem Soba, pelo facto de este ter concertado a sua motorizada, uma única vez. Nunca conviveu com o Soba.

José foi detido no dia 22 de Julho de 2020, quando se dirigiu à esquadra do CTT-Rangel, pelo facto de ter ouvido de sua esposa e sua mãe que agentes do SIC apareceram em casa e as molestaram.

“Quem não deve não teme, por isso ele foi saber as reais razões da presença do SIC na sua residência. Foi assim que o detiveram e, sob fortes torturas, lhe perguntaram sobre o paradeiro do Soba, que teria participado do crime de homicídio. Disse que não sabia da sua localização”, referiu o advogado, sublinhando que estamos diante de uma injustiça.

O advogado pediu ainda que se alterasse a situação carcerária do réu, para a liberdade provisória sob termo de identidade de residência, uma vez que já está detido há 7 meses, mas o tribunal entendeu não agir desta forma. A justificação é que tal alteração poderá beliscar o processo.