É de hoje… Pecado capital

É de hoje… Pecado capital

As imagens que correm pelo mundo sobre o Brasil são deprimentes. A nova variante do coronavírus deixou de rasto alguns estados brasileiros, com realce para Manaus, que vive uma crise sem precedente provocada pela falta de oxigênio. O Brasil não é um país qualquer para Angola. Foi o primeiro a reconhecer a nossa Independência, falamos a mesma língua e possui alguns problemas sociais semelhantes aos nossos. A segunda vaga da Covid-19, alimentada por uma nova estirpe, é, ao de longe, mais destruidora do que a primeira.

As novas variantes, sejam elas brasileiras, sul-africanas, inglesas ou australianas, são mais assustadoras, contagiosas, menos selectivas, podendo até atingir um segmento que antes se pensava imbatível: os jovens e as crianças. Os estragos que se observam hoje na América, Ásia e em determinadas regiões do continente africano sugerem-nos cautela e alguma habilidade para se lidar com o que poderá vir mais a frente.

Ontem mesmo, o directorgeral da OMS, Thedros Tedros Adhanom Ghebreyesus, anunciava a existência de uma crise moral no mundo, por causa da inexistência de vacinas em determinados territórios, quando noutros um número considerável de indivíduos, em situação de crise ou não, já beneficiam das campanhas de imunização. Enquanto em alguns continentes o processo é quase normal, com milhões de pessoas já vacinadas, na maioria dos países africanos não há ainda garantias de que venham a beneficiar dos lotes supostamente encomendados, uma vez que os ‘bichos papões’ pretendem reforçar os seus stocks, por força dos acordos celebrados com os laboratórios e a situação de saúde imposta agora pela segunda vaga da pandemia.

Este dilema, uma vez mais, deveria levar os líderes africanos a reflectirem sobre as prioridades que vão tomando nos seus países, em que se descura, maioritamente, os investimentos na educação, saúde e investigação científica. Mesmo sendo o continente berço da humanidade, os africanos estão hoje com as mãos estendidas à caridade e à benevolência dos países mais poderosos do mundo que, mesmo perante uma crise sanitária aguda conjunta, deverão privilegiar inicialmente os seus cidadãos.

Embriagados pela soberba, alguns dos nossos endinheirados estarão de certa forma felizes por terem comprometido os seus povos, enquanto eles próprios se irão refugiar nas mansões adquiridas no exterior para receberem a primeira e a segunda doses da vacina. Seja ela da Coronavc, Pfizer, Modena e outras. Ainda assim, esquecem-se de que lá onde estiverem não passarão também de cidadãos de segunda, endinheirados, mas pobres por não terem sequer permitido que os seus países fabricassem uma aspirina ou um simples balão de soro.