2021 e essas questões

2021 e essas questões

Por: RICARDO VITA* 

 

ANGOLA ANTIGA & ANGOLA NOVA: 2021 será também um ano repleto de desafios para o nosso país em todas as áreas, especialmente na política. Embora na Independência o nosso povo esperasse pela criação de uma Angola para todos os angolanos, o MPLA simplesmente criou um país na completa imagem do MPLA para o MPLA e os bons filhos do MPLA. Essa organização política, no poder desde 1975, deve, portanto, ainda provar que realmente mudou, apenas dizê-lo já não é mais suficiente. Com o MPLA enredado na sua corrupção contagiosa, que arrastou todo o nosso país para a ruína e o empobrecimento, os desafios do Presidente João Lourenço são colossais se pretende recandidatar-se serenamente em 2022 sob as suas cores. Se no compromisso do Presidente contra a corrupção fomos todos capazes de sentir algumas acções musculosas, provavelmente teremos que mostrar mais criatividade para evitarmos que a dupla nacionalidade, este direito constitucional, continue a servir de meio de escapar da nossa justiça.

Pois, os nossos governantes têm a obrigação de jurar fidelidade e defender exclusivamente os interesses do nosso país. Mas os factos não refletem isso; a dupla nacionalidade também é usada por alguns governantes, actuais e antigos, para roubar o nosso país e driblar melhor a sua justiça. Irene Neto, fi lha do primeiro presidente, escarneceu recentemente a nossa justiça, pedindo à PGR que fosse buscar o seu filho em Portugal, indiciado no caso do marido São Vicente, que também é pai desse filho. E a nossa Princesa Isabel dos Santos, outra criação do MPLA, é agora conhecida pela sua identidade russa. Sim, estou a falar da mesma senhora que disse há alguns meses que queria ser presidente do nosso país.

João Baptista Borges, Ministro da Energia e Águas, foi recentemente e severamente acusado de corrupção, com elementos de prova, por uma televisão portuguesa. Não é mais um estorvo para o nosso Presidente? Em todos estes casos, a dupla nacionalidade das pessoas em causa ou dos seus familiares contribuiu para facilitar os crimes de que são acusados. Diante de um monte de ruína, causado por esse direito, não seria hora de olhar para a questão para a enquadrar? É a função do legislador em qualquer país sério. Então, porque não regulamentar a dupla nacionalidade, para todos aqueles que optam por exercer funções públicas, a fi m de proteger a soberania e os interesses do nosso Estado?

Se a dupla nacionalidade é um direito constitucional e também traz vantagens, a fl agrante participação de Portugal na corrupção organizada pelo MPLA no nosso país deve fazer-nos pensar. O facto de este país, Portugal, ser considerado um país “irmão” por este partido, MPLA, deve exigir salvaguardas. Mas se se trata de mais um gozo que o MPLA deseja manter, então não deve ser surpresa quando isso realmente enfraquecer a nos
sa soberania, especialmente se as pessoas envolvidas forem funcionários das forças de defesa e segurança.

UNIÃO AFRICANA & VACINAS: A União Africana anunciou que obteve 270 milhões de vacinas anti-Covid para o nosso continente. Essas vacinas, das quais pelo menos 50 milhões estarão disponíveis entre abril e junho, serão fornecidas pelos laboratórios Pfi zer-BioNTech, AstraZeneca e Johnson & Johnson. E apesar das previsões alarmistas do Ocidente, o nosso continente até agora foi bastante poupado da pandemia; com pouco mais de 3 milhões de casos e cerca de 80.000 mortes, segundo dados ofi ciais, contra mais de 16 milhões de casos e mais de 500.000 mortes na América do Sul e nas Caraíbas, por exemplo. Mas como pode a União Africana, que depende, fi nanceiramente, de quase 80% da ajuda estrangeira para o seu funcionamento, portanto que não controla nenhum laboratório farmacêutico no mundo, pode recomendar com calma vacinas fabricadas por potências que nunca esconderam a sua obsessão em reduzir e controlar a população africana? Podemos, dada a nossa trágica história com o Ocidente, razoavelmente encorajar as populações africanas a tomarem essas vacinas defendidas por uma instituição que não tem poder político, nem fi nanceiro e nem mesmo capacidade para as fazer verifi car?

UNIÃO EUROPEIA & BREXIT: O Brexit confi rma o regresso das fronteiras e da soberania na Europa, o que também pode marcar o fi m da União Europeia. Este projecto, que parecia ser a oportunidade de criar um grande mercado capitalista, nem sempre parece dar todos os resultados esperados. Porque o regresso do nacionalismo corrói a euforia de viver juntos como irmãos europeus que surgiu após a Segunda Guerra Mundial. Em verdade, não acredito no futuro desta união. Se o declínio demográfi co e a perda de robustez das economias europeias persistirem, a sua desintegração é inevitável.

BIDEN-KAMALA & TRUMP: O Trump não terminou o seu muro, mas a investidura de Biden-Kamala na quarta-feira, numa atmosfera de guerra e com ares de fortaleza, marcou uma viragem na história do Ocidente. Sempre achei a democracia americana estranha, nunca a vi realmente como a maior democracia do mundo. Uma democracia onde os votos não têm o mesmo peso, outro legado do período da escravatura, que dá peso desproporcional aos pequenos Estados, ao eleitorado branco não hispânico, não pode ser considerada a maior democracia do mundo. Uma democracia só é grande quando cada voto é um voto, por sufrágio universal. Os Estados Unidos, um país nascido do pecado original, há muito desejam esconder o seu verdadeiro rosto. Se o Obama, que o Biden chamou de “fi rst mainstream African-American who is articulate and bright and clean and a nice-looking guy “ durante as primárias das eleições de 2008, criou o Trump, é porque ele veio lembrar aos supremacistas brancos que o Negro era igual a eles: um ser humano pleno.

A força simbólica que incarnava como presidente excitou velhos demônios enterrados em todos os mundos brancos. Os representantes surgiram no Brasil, em Portugal, na Grã-Bretanha e em outros lugares. Os extremos nunca tiveram um vigor tão desinibido como hoje. A América de Biden-Kamala será, portanto, também a América do Trump. O trumpismo não morreu, longe disso, confi rmam-no os batalhões enviados a Washington durante a cerimónia de investidura. E esta América esteve muito bem representada nas eleições presidenciais, a vitória de Biden-Kamala não foi tão retumbante. Isso é o que deve dar-nos a temperatura deste mundo que nos espera. Se o Obama cristalizou o ódio, a Kamala, por sua vez, terá que ter coragem e nervos de aço. Também deverá esperar receber cartões postais pitorescos do Trump.

A candidatura da Kamala prevista dentro de 4 anos não garante nenhuma vitória fácil. Mas antes vamos ver como o Biden e a Kamala passarão os míticos primeiros 100 dias. E, depois disso, também teremos 4 anos para ver onde estará o nosso mundo, que está a desfazer-se a cada dia. Poderá talvez estar livre da Covid, mas cada nação provavelmente estará terrivelmente retraída dentro de si mesma. Por ora, só tenho que desejar que o Biden e a Kamala não cruzem com o trágico destino do Kennedy.

 

Ricardo Vita é Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França.

É colunista do diário Público (Portugal),

cofundador do instituto République et Diversité que promove a diversidade em França e é empresário.