Três quartos de hora

Três quartos de hora

Por: JOSÉ MANUEL DIOGO

Se eu só tivesse quarenta e cinco minutos para te dizer tudo o que falta, fi cava calado a olhar-te enternecidamente como se fosses um daqueles fi nais de tarde em junho onde o sol se põe devagar, exatamente por de trás do farol que existe no meio do rio, exatamente ali, onde, no solstício de verão a luz e o ocaso brindam ao infi nito sem latitude. Três quartos de hora para te dizer tudo não chegariam para nada. Mas também não chegaria uma hora inteira, nem um dia, nem um ano, nem talvez a vida toda.

Afi nal tu és a inspiração original que só aprendi mais tarde. Que se guardava no laudo fi nal de um romance tão próximo de nós que lhe sabíamos as palavras de cor. Mas não o signifi cado que depois lhe deste. Mas como cada minuto tem sessenta segundos e quarenta e cinco vezes isso é muita coisa, percebo afi nal que tenho todo o tempo do mundo para te dizer tudo o que falta. Então percebo que o tempo é apenas ilusório e hesito. E é de olhos postos nesse recorte único do horizonte que compreendo exatamente que antes do farol a luz do ocaso era apenas ela mesma, apenas luz sem sítio, farol de farol sem propósito, sem fi to que não fosse o de um dia vir a ser a orientação de mim.

Mesmo que antes tenha orientado outros milhões de barcos e impedido exatamente dois mil e setecentos naufrágios. Escuta: estou agora de pé. Com os pés semienterrados na areia branca da praia, naquele único dia de junho em que o sol não se põe no mar. Estou nos últimos quarenta e cinto minutos que tardam até à luz desaparecer no farol invertido que nessa única vez engole a luz do sol em vez de a espelhar no mar. Semicerro os olhos para que a linha se faça mais nítida e o recorte mais clássico e formulo um desejo. A cada ano que passa gasto esses últimos quarenta e cinco minutos esperando a claridade cair, revolvendo a vida, elencando as transumâncias da alma, “resuminando” as incidências da luz em mais uma volta completa ao sol.

Neste ano que há-de vir o solstício também há-de ser teu, completamente teu pela primeira vez, e lá estarás fazendo parte da condição do próximo ciclo. Afi nal foram precisos cinquenta e três anos, sete meses e onze dias, com todas as suas noites, para que eu te encontrasse. E me ateasses o fogo, a forma e a quentura que tudo mudaram. Se eu só tivesse quarenta e cinco minutos para te dizer tudo o que falta, guardavaos sempre para o ano que vem e assim sucessivamente, para o outro e para o outro, convidando-te neles todos a fi car a meu lado de pés semienterrados na areia branca daquela praia secreta de onde uma vez por ano se pode serenamente acreditar que o sol não caia no mar.