É de hoje…Impunidade

É de hoje…Impunidade

Quando, após à morte de Jonas Savimbi, José Eduardo dos Santos anunciara que depois da guerra o segundo mal era a corrupção, este fenómeno não era tão novo e os efeitos já ultrapassavam todos os segmentos da vida política, económica e social. Embora seja um problema transversal, com ramificações nos demais sectores políticos, sociais e até religiosos, o partido do poder, MPLA, é visto por determinados segmentos como aquele que mais responsabilidades tem sobre o assunto, por ser aquele que, durante mais de 40 anos, lidera o país.

O facto de ser o partido governante, ter uma falange de membros que se suspeita ter chegado à riqueza por meios ilícitos aguça as suspeitas, o que fez com que, num período recente, o próprio líder da organização não descartasse a possibilidade de serem alguns dos seus camaradas a caírem primeiro. Expressões como o ‘vê lá com quem falas’, ‘não tens noção da pessoa em que te estás a dirigir’, ‘quem tem padrinho na cozinha não morre à fome’ ou ‘cabrito come onde está amarrado’ tornaram-se, ao longo dos anos, uma espécie de catecismo seguido à risca por uma grande maioria dos angolanos.

Ao longo dos anos, foram poucos os políticos, líderes religiosos ou até mesmo detentores de poderes que não sucumbiram aos prazeres proporcionados pelo tráfico de influência e não só. A situação atingiu não só o partido no poder como também das demais forças vivas da sociedade, incluindo muitas que se apresentam mais críticas nos dias de hoje. O pagar uma gasosa para obter um serviço, não apresentar um relatório de contas em tempo útil ou surripiar bens nas instituições em que estão ligadas tornou-se, praticamente, uma filosofia de vida. Curiosamente, Angola foi transformada, nos últimos tempos, naquele país em que muitos dos seus responsáveis não se coibiam de organizar festas caríssimas e também os próprios mimarem-se com presentes caríssimos quando atingissem os milhões de dólares norte-americanos.

Por outro lado, esta mesma sociedade que hoje condena é aquela que quase sempre não consegue sequer reconhecer os feitos daqueles que preferiram com lisura e transparência dirigir os pelouros em que estiveram ligados. São vários relatos de entidades que sofreram bullyng por não se terem atirado ao pote tal como o fizeram e acabaram por desaparecer sem as condições sociais que muitos dirigentes sem histórico político e até de gestão hoje demonstram. A impunidade e outros crimes de corrupção estão longe de ser apenas um dilema do MPLA. Mesmo que hoje a organização faça ‘mea culpa’ em relação ao seu passado e às figuras que saíram do seu seio que estão a ser acusadas e julgadas por crimes desta natureza. Espera-se da sociedade um empenho maior, r, assim como dos partidos políticos, das igrejas e da própria sociedade civil, transformando este problema num propósito colectivo, isso sem se descurar as responsabilidades por parte daqueles que tinham a missão de travar o mal mais cedo.