Al-Sissi não poupa esforços para evitar gritos de liberdade no Egipto como há 10 anos

Al-Sissi não poupa esforços para evitar gritos de liberdade no Egipto como há 10 anos

Dez anos depois de milhares de egípcios terem pedido liberdade nas ruas lançando a “revolução de 25 de Janeiro”, o poder de Abdel Fatah al-Sissi não poupa esforços para se proteger de um tal cenário

Dez anos depois de milhares de egípcios terem pedido liberdade nas ruas lançando a “revolução de 25 de Janeiro”, o poder de Abdel Fatah al-Sissi não poupa esforços para se proteger de um tal cenário, reprimindo implacavelmente qualquer oposição.

A 25 de Janeiro de 2011 milhares desfilaram no Cairo, em Alexandria e em muitas outras cidades e gritaram “Pão, Liberdade, Dignidade”, enquanto outros pediam a saída do autocrata Hosni Mubarak.

Este demite-se a 11 de Fevereiro, mas “a Primavera Árabe no Egipto durou pouco”, disse à agência France-Presse Agnès Callamard, relatora especial da ONU em execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias.

Após a destituição pelo exército em 2013 do Presidente islamita Mohamed Morsi — o primeiro eleito democraticamente -, a sociedade civil egípcia perdeu gradualmente todo o espaço de expressão livre. Activistas políticos, jornalistas, advogados, intelectuais são presos por uma justiça expedita.

“O regime retirou a pior lição da Primavera Árabe: cortar qualquer indício de liberdade pela raiz”, adiantou Agnès Callamard. As organizações de defesa dos direitos humanos denunciam ainda condições de detenção desastrosas, torturas e execuções extrajudiciais.

No início de Dezembro a Amnistia Internacional denunciou um recente “frenesim de execuções” e no seu relatório anual apresentado há uma semana a Human Rights Watch assinala o “forte controlo do governo autoritário” de Al- Sissi, adiantando que “dezenas de prisioneiros morreram sob custódia, pelo menos 14 dos quais aparentemente devido à Covid-19” que “agravou as já terríveis condições de detenção”.

A resposta das autoridades egípcias face às críticas internacionais tem sido invariável e foi reiterada recentemente pelo chefe da diplomacia, Sameh Choukry: “No Egipto, pensamos que a avaliação da fidelidade (de um Estado) aos direitos humanos é da responsabilidade de sociedade em causa e não de partes externas”.

As autoridades desmentem qualquer prática de detenção arbitrária ou de tortura. O governo atribui “grande importância à liberdade de opinião e de expressão. Não existem ‘presos políticos’ (…) Todas as detenções estão ligadas a acções de violação do Código Penal”, afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros egípcio à AFP. Segundo organizações de defesa dos direitos humanos, o país terá cerca de 60.000 presos políticos.

A onda de repressão começou no verão de 2013, quando centenas de islamitas que protestavam contra a destituição de Morsi foram mortos pela polícia no Cairo, segundo várias ONG.

Seguiram-se as detenções arbitrárias, julgamentos em massa e condenações à morte de muitos membros da Irmandade Muçulmana (à qual Morsi tinha pertencido e que foi proibida em 2013), mas também de pessoas ligadas à oposição liberal.

O poder de Al-Sissi, eleito em 2014 e reeleito em 2018 sem adversários sérios com mais de 97% dos votos, tem-se reforçado. Em Abril de 2019, uma revisão Constitucional prolongou a sua presidência e fortaleceu o seu controlo sobre a justiça.