A Caverna de Platão e a Covid-19 em Angola

A Caverna de Platão e a Covid-19 em Angola

Por: LUÍS BERNARDINO 

Na alegoria de Platão, os prisioneiros da caverna não vêm o Mundo, mas apenas as suas sombras projectadas na parede em frente e é neste seu Universo que eles se movem e vivem, completamente ignorantes de Mundo Real. Será que, em Angola, a nossa vivência da epidemia da Covid-19 é a realidade ou são “as sombras” diariamente projectadas pelos meios de informação? Aparentemente, estamos numa situação invejável no que respeita à epidemia: face aos 100 milhões de casos a mais de dois milhões de mortes registados à escala mundial, tivemos apenas 19.093 casos diagnosticados e 448 óbitos sofridos desde o início da epidemia (para uma população de 31 milhões) . Se nos ativermos à informação do Secretário de Estado emitida ontem, relativamente a 20 de Janeiro: houve apenas 82 casos positivos no teste RT-PCR e não há menção de óbitos. Portanto, temos apenas 0.3 doentes por 100.000 habitantes/ dia.

(Ah, um pequeno detalhe, fizeram -se nesse dia 1819 testes). Se virmos o que se passa no Mundo, com as angústias da 2.ª ou 3.ª vagas da epidemia e as inevitáveis variantes (que, como é do comportamento viral ,se irão sucedendo, criando especulação e pânico, por vezes por mimetismo), vemos que os Serviço de Saúde da Espanha, Portugal, Reino Unido, Estados Unidos e muitos outros Países estão sobrecarregados e acima da sua capacidade máxima. O número de casos diários por 100.000 habitante era no dia 22 de 1.464 em Portugal, , 525 em Espanha, 471 na Suécia, 31 no Brasil.

Dir-se-ia que as politicas de controlo executadas há vários meses , envolvendo o encerramento das escolas, redução das actividades a nível de toda a administração, dos Bancos, das instituições de Saúde, a suspensão ou grande contracção das comunicações internas e externas, os confi namentos institucionais e a cerca permanente à capital resultaram, como as excelentes estatísticas indicam. Mas caminhemos um pouco para além das sombras, e vamos ver se nos acercamos da Realidade, usando o que se sabe sobre os testes confi rmatórios da doença e sobre o número de doentes identifi cados.

AS EVIDÊNCIAS DOS TESTES

São estes os número de testes RT-PCR feitos atá à data indicada nos vários países para identifi cação dos casos: Em Angola testa-se pouco, como em quase todos os Países Africanos, com excepção da África do Sul e Marrocos. E se se testa 50 ou 100 vezes menos, vamos encontrar infectados num número correspondentemente menor. A extraordinária e se calhar inédita decisão de se impor, há vários meses, um controlo sanitário nos postos de entrada da capital implicava fazer, a nível interno, o controlo realizado nas fronteiras e no Aeroporto, obrigando a testagens que, mesmo para países melhor equipados, seria difícil. Era uma missão impossível entre nós e originou enormes constrangimentos : o teste RT-PCR tem de ser feito em laboratório e pode demorar dias (com a fila de camionistas parados para testagem a alongar-se indefi nidamente e o País a paralisar) pelo que se recorreu à “cábula” dos testes serológicos, que se fazem localmente com uma picada do dedo e se lêem em 10 minutos.

Sabe-se, cito que “…os resultado destes testes não indicam com certeza presença ou ausência de uma infecção actual ou prévia, pois as IgM e IgG podem aparecer apenas uma a três semanas após a infecção. o diagnóstico é apenas possível na fase de recuperação… “. Mas recorreu-se a esta tecnologia como triagem, e mesmo agora, com os testes Antigénicos Rápidos (que ainda envolvem zaragatoa) pode ver-se nos informes diários que se utiliza ainda a “cábula” como primeiro teste de triagem. Inadvertidamente, explorou-se uma virtualidade dos testes serológicos que se baseia no conhecimento de que, cito “… a prevalência de anticorpos na população pode ajudar a compreender a extensão da epidemia e o papel de transmissão dos indivíduos assintomáticos…” .

Na verdade, enquanto que a pesquisa do agente por RT-PCR ou Antigénio apenas é positiva durante 2-3 semanas, os anticorpos nos testes serológicos mantêm-se por semanas ou meses e são um bom indicador de infecção anterior daquela população. Com base nos testes serológicos, já, em Agosto de 2020m a Ministra estimava que 5% da população tinha serologia positiva, sem talvez reparar que isso correspondia a 500.000 pessoas numa população de 10 Milhões que se estima para Luanda (portanto valores de infecção várias vezes mais altos dos que eram anunciados). A 8 de Janeiro de 2012, lê-se em “O País” a informação do Secretário de Estado: em 985 testes, à entrada de Luanda, 78 serologia positivas (8.8%). A 19 de Janeiro, 103 são positivos em 780 amostras (13.2%). A 20 de Janeiro, 53 positivos em 793 amostras (7%). Tudo indica que esta população com serologia positiva que, portanto, foi infectada se aproxima agora de 10%, o que corresponde à taxa de Imunidade de Grupo encontrada nas populações do Hemisfério Norte. Se estas sucessivas amostras são representativas a nível nacional, temos uma realidade de 3.000.000 de infectados, em vez da sombra de …19.093 … que aparece à data nas informações diárias…

AS EVIDÊNCIAS NA POPULAÇÃO

Se o número real de infecções laboratoriais é tão alto, porque não se verifi ca um maior número de doentes que necessitem internamento, e os hospitais não estão sobrecarregados, bem pelo contrário, o pessoal trabalha menos horas (parece que agora é em semanas alternadas e, sou agora informado, o Bloco Operatório do Hospital Josina Machel está suspenso, alegadamente por causa da Covid) e há subocupação – inédita – nos hospitais públicos? Há razões administrativas que se prendem com as políticas do Ministério da Saúde, mas a principal razão parece ser demográfi ca e em relação com a conhecida evidência que a Covid-9 é bastante benigna para as crianças e jovens. mas tem formas graves e maior mortalidade nos mais de 65 anos. Na população de Angola predominam as crianças (47% da população tem menos de 15 anos) e os jovens, e só 2.2% tem mais de 65 anos. Compare-se com a população típica dum país Europeu como Portugal: 21% têm mais de 65 anos, e só 14% têm menos de 5 anos.

O cenário muito provável para países Africanos e com a mesma estrutura demográfi ca de Angola é o vírus ter grande circulação. Sem sintomas ou com doença leve (uma simples constipação), para a maioria da população jovem. Os mais velhos estão em maior risco, mas, como não são numerosos, o seu eventual óbito não será tão visível e enquadra-se nas causas de morte desse grupo etário, que nesses países, tem, mesmo em tempos calmos, menor esperança de vida. Esta análise aproxima-se ao parecer dado por Alex Broadbent, um fi lósofo Sul-africanos autor duma interessante “Filosofi a de Medicina”, e que, no inicio da crise, aconselhou para o seu País, com base na argumentação referida, uma maior contenção das medidas restritivas de Saúde Publica, de forma a não agravar os problemas sociais da população.

Um amigo meu, Pediatra especializado em programas internacionais de apoio médico e social escreve-me a 15 de Janeiro da Tanzânia e diz-me “… aqui tudo está como antes, dizem que aqui não há vírus…”. E parece que, para o bem ou para o mal, a Tanzânia não está nos radares das notícias da pandémia. Na recente conferência online promovida pela Comissão Científi ca de Apoio ao Controlo da Epidemia, fi zeram-se análises estatísticas retrospectivas sobre os resultados dos testes RT-PCR, mas não vi o necessário tratamento epidemiológico dos testes serológicos.

O estudo serológico prospectivo nos bairros de Luanda e nas províncias, com a devida metodologia (que não é seguida, natualmente, quando se usa a serologia apenas como “cábula” para poupar os testes mais caros e morosos) é o grande instrumento para saber a verdadeira grandeza e distribuição da epidemia Covid-19 em todo o território nacional. Permitirá dar uma base científi ca às politicas do Governo no que respeita a restrições de circulação interna, e irá talvez aliviar as populações e favorecer a economia. É necessário criar um ambiente científi co que não se submeta à cultura de conformidade às “ordens superiores”, mas sim aos factos – a uma Realidade que benefi cie o País , e não às “Sombras”, que o entorpecem.