Discoteca em frequência Modulada

Discoteca em frequência Modulada

E certa noite ao ouvir a vinheta de entrada, o coração desactou aos pulos. Durante o programa, o rádio chiava dificultando a audibilidade. Mudava-se a posição do aparelho na ânsia de melhorar a recepção do sinal. Era como se estivesse a acalmar um bebé em crise de choros devido as dores provocadas pelo bucho virado! A audiência, depois das sessões clandestinas de escuta dos programas, saia dos casebres silenciosa e mergulhava na noite onde se confundia com silhuetas e na cama de colonizado refletia demoradamente sobre os eventos da véspera. Um sorriso morno e de esperança bailava no rosto, enquanto se acomodava na esteira de palmeiras.

O rádio continuava a apelar às populações para a luta! – Um dia também vou ser menino!… E na hora da saída da escola, olhava inconformado para os colegas que embarcavam em carros reluzentes conduzidos pelos seus pais, enquanto ele seguia a pé com os livros no saco de plástico. Chegava a casa com o rosto e os pés empoeirados! Era negro! Certo dia foi inclusive destratado pela filha do padeiro: – Seu macaco! Até adormecer, as palavras da Rosalina martelavam a sua consciência! – Mas por quê, eu não sou gente como eles? – “Desde a antiguidade, o inimigo sempre foi antes de tudo o Outro, o estrangeiro. Seus traços não parecem corresponder aos nossos critérios de beleza e se tem hábitos alimentares diversos, o cheiro de seu alimento nos choca… Para não falar dos sons incompreensíveis de uma língua estrangeira. (Umberto Eco, 2015, 4 ed., p.185).”

– Mas eu sou angolano, qual é a razão para tamanha violência? – As razões do conflito podem ser encontradas na ansiedade da incompletude. É essa ansiedade da incompletude que gera a raiva e a violência (Arjun Appaddurai, p.46). – Meu Deus, que fazer?… Em 11 de Novembro 1975, o sonho torna-se realidade! Angola é nossa! A Polícia Política e seus assalariados saem de cena! O poder do povo também sai da clandestinidade e ocupa o palco! Para a auto estima da angolanidade, era gente como nós que falava ao microfone da rádio! Um só povo! Uma só nação! A baixo o racismo! A baixo o tribalismo! A baixo o neocolonialismo! Viva a Unidade Nacional!

A Rádio Nacional de Angola converte-se assim na única voz em todo o território! Mais tarde a monotonia apela por mais vozes para a diversificação da opinião e dos conteúdos noticiosos. E de um momento para o outro várias rádios passam a emitir em Frequência Modulada. Hoje ter uma rádio virou moda como no tempo das lanchonetes, salões de beleza, catinas e igrejas. Mas algumas são autênticas discotecas em FM! Coloca-se uma pen drive com as faixas preferidas e deixa rolar a bobine. Espaço para o jornalismo é apenas um cheirinho insonso!

Locutores que mal sabem articular as palavras e nem respirar correctamente para a sua própria sobrevivência titubeam ao apresentar noticiários e entrevistas! E gente sem o mínimo de educação moral e cívica tem horas livres para martelar os ouvidos da audiência com suas perguntas despropositadas, gargalhadas sonoras, equívocos e impropérios! É a rádio popular! Ai os pastores! Os gritos dos pastores ao microfone e as simulações de milagres, bem como informações sobre os engarrafamentos do trânsito caótico da cidade também começam já a saturar, a suturar! Saudade de locutores com vasta cultura geral, boa educação, dicção e sensibilidade. Reencontrar África, Antologia, Poeira no Quintal!

Boa noite Angola, África Magazine, Radionovela Camatondo(RNA); Afrikia e Café da Manhã(LAC); Discurso Directo (Eclésia); João Dois Pontos e Estado da Nação(MFM)! Meu Deus, cadê o Octaviano Correia e suas “Palavras escritas com coração”?… Um país vasto e em movimento ainda carecesse de mais jornalismo! Então por que não apostar na criação de uma Central Angolana de Notícias?

Pelo perfil a Agência Angolana de Notícias(Angop) devia acolher o projecto, pois ela já tem o essencial, a produção de notícias. Portanto, bastaria montar um estúdio para sonorização, emissão e entrevistas. Com as novas tecnologias uma simples Webrádio e com respectivo aplicativo seria a solução ideal numa área cuja dona e senhora é o Ministério das Telecomunicações e Tecnologia de Informação e Comunicação Social! Criais marcas que perdurem no tempo, façais história! O efémero pode envaidecer, mas raramente enobrece! – Onde está a voz do povo, as rádios comunitárias? Aí são os cidadãos a falar de si e dos seus problemas!

– Queres uma Comuna de Paris?… Vamos com gradualismo! – Se tudo fosse feito com gradualismo ainda hoje seríamos um povo colonizado!… Pense nisso! Orson Welles e os seus marcianos já não voltarão a invadir a terra semeando o pânico entre os citadinos!… “Por vezes, temos de nos obrigar a nós próprios a avançar em novas direcções, mesmo se isso envolver riscos (Robert Greene, 2007, p.17).” As grandes conquistas nunca estão na zona de conforto!

Por: Augusto Alfredo

Mestre em Comunicação