É de hoje…A coragem do Presidente

É de hoje…A coragem do Presidente

Não é novidade que temos um Estado centralizado. Um Estado em que se não existir vontade política de quem governa quase que nada se faz, uma vez que o poder central acaba por ter influência em diversos sectores.

Houve uma fase em que se dizia que bastava apenas uma palavra do Chefe de Estado para que as coisas avançassem. Uns diziam, ironicamente, que, na época do Presidente Eduardo dos Santos, se quiséssemos ver as estradas reparadas, era só entregar uma viatura todo o terreno ao Mais Alto Magistrado da Nação. De seguida, teríamos muitos dos troços a serem intervencionados, mesmo que não fosse com o esmero que se espera para as nossas principais vias.

Quero crer que nos dias que correm já não seja a mesma coisa. Mas, o que se quer destacar aqui hoje é a coragem que vai sendo demonstrada pelo actual inquilino da Cidade Alta para a discussão de alguns temas, até então tidos como tabús ou impróprios para determinados momentos.

Trouxe à tona a questão das autarquias. Embora não seja ainda uma realidade, talvez quando se resolver o imbróglio que constitui o pacote legislativo se encontre um rumo. Se as teremos este ano ou no próximo, como também defendem algumas vozes, incluindo fi guras de destaque da própria sociedade civil, como o reverendo Ntoni-a-Nzinga.

À margem das autarquias, dois outros assuntos podem conhecer desfecho já no consulado de João Lourenço, depois de anos a fio mofando nos corredores da Cidade Alta ou noutras repartições.

Refiro-me, concretamente, à questão dos transplantes, que já mereceu uma primeira abordagem na Assembleia Nacional, e agora a que está relacionada com a reprodução humana assistida.

Trata-se de propostas que existem há alguns anos. A sua discussão era tabú em determinados momentos da vida deste país. Os transplantes devido aos receios próprios que uma decisão do género poderá encerrar, sobretudo nesta fase em que informações apócrifas insinuam a existência de raptos para a extracção de órgãos, algo que a Polícia Nacional já veio a público desmentir.

Por outro lado, de acordo com decisões saídas do encontro de ontem na Cidade Alta, a discussão da reprodução humana medicamente assistida, designadamente, a inseminação artificial, fecundação laboratorial ou fertilização in vitro.

Embora vivamos num estado laico, há temas que para determinados sectores serão vistos como inapropriados, sobretudo para os religiosos. Seja qual for o desfecho ou as discussões, há que ressaltar a coragem para que sejam, no mínimo, discutidos e resolver problemas que fazem com que muitos angolanos se desloquem ao exterior à procura de um filho.