Presidenciais portuguesas: vencedor e vencedores ex- aequo

Presidenciais portuguesas: vencedor e vencedores ex- aequo

Por: Jaime Nogueira Pinto 

 

As eleições presidenciais portuguesas, de 24 de Janeiro, deram-se num país que, neste momento, bate os piores recordes europeus e mundiais de incidência e propagação da Covid 19. E que, hoje mesmo, no meio dos dias mais trágicos da pandemia, votou a Eutanásia no Parlamento, como se, escreveu um crítico – “incapazes de tratar dos vivos, os parlamentares portugueses quisessem ajudar mais alguns a morrer”!

A aBstenÇão

Mas as eleições de 24 de Janeiro foram, mais que uma escolha do novo Presidente – Marcelo Rebelo de Sousa era dado como reeleito por todas as sondagens e pesquisas de opinião – (tínhamos aqui mesmo escrito isso), uma mega sondagem político-social ao eleitorado português, num tempo particularmente atribulado, talvez mesmo o pior em várias gerações. A abstenção que já era grande – mais de 50% nas últimas eleições presidenciais – chegou desta vez aos 60%. Embora haja uma desactualização dos cadernos eleitorais, e muitos eleitores ausentes e até falecidos continuem a figurar como votantes, a verdade é que é um número muito elevado de abstencionistas. Mas o medo ao contágio num momento de confinamento obrigatório e em que a Pandemia Covid 19 regista os valores mais altos no espaço europeu em termos de taxa de novos casos por 100.000 habitantes e de óbitos por milhão, é natural que muitos eleitores não saíssem de casa no Domingo.

Marcelo – uma vitÓria anunciada A vitória e reeleição do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que foi a indicação de voto do PSD, do CDS e, indirectamente do Primeiro Ministro António Costa, não surpreendeu. Não surpreendeu, e nem sequer tem muito a ver com os apoios partidários. Marcelo Rebelo de Sousa é um caso de popularidade genuína, transpartidária, fruto de um esforço constante do Presidente em termos de presença junto das populações, sobretudo nos mementos de crise. Ajudam também a essa popularidade o facto de ser um católico convicto e a imagem de honestidade pessoal, numa classe política onde os casos de alta, média e baixa corrupção são comuns. Estas qualidades fazem dele, para além das indicações partidárias, o candidato do maior partido português, que é, precisamente, o dos apartidários, dos cidadãos sem filiação partidária. É certo que na votação também contaram para o apoio à reeleição, o desejo de estabilidade e continuidade num momento de grande inquietação e crise. Contra Marcelo houve, à direita, um voto mais político dos que consideram que ele tem sido demasiado complacente com o Governo de António Costa. Isto apesar de o candidato se ter afirmado, num debate, de uma “direita social”, querendo com isto afastar-se do neo-liberalismo puro e duro.

AntÓnio Costa – vencer sem concorrer O Primeiro Ministro, não concorrendo, não tendo indicado candidato pelo PS e endossado indirectamente Marcelo, acabou por ser também um vencedor. Além de entrar nos que contribuíram para a vitória do Presidente, castigou a ala esquerda do PS, onde alguns elementos apoiaram Ana Gomes; melhor que isso a votação muito baixa da candidata do Bloco de Esquerda, Marisa Matias, reduz o Bloco à marginalidade eleitoral e torna-o refém do PS e do Governo, na medida em que não pode arriscar qualquer atitude que ponha em causa a maioria parlamentar. O PCP também desceu e está, por isso, refém do PS e da Geringonça. Mas os comunistas tiveram uma posição singular e humanista, na questão da Eutanásia, em que votaram – com os partidos da direita CDS e Chega, e grande parte dos deputados do PSD – contra a Eutanásia. Os neoliberais da IL – Iniciativa Liberal votaram a favor.

AndrÉ ventura – o terceiro vencedor O terceiro vencedor e a novidade desta eleição foi André Ventura, líder e candidato do Chega. Apesar de uma campanha hostil de todos os media – e da hostilidade convergente dos outros candidatos – Ventura que tivera, há quinze meses, nas eleições legislativas, 68 mil votos, chegou desta vez muito próximo do meio milhão, isto é, teve 12% do eleitorado nacional, ficando em 11 dos 18 distritos do Continente, em segundo lugar logo a seguir a Marcelo. Isto dá ao candidato da direita popular e anti-sistema (como o próprio se designa, enquanto os seus inimigos e a generalidade dos media o qualificam de populista, extrema-direita, e até “fascista” e “racista”) um poder negocial grande em relação às próximas eleições autárquicas e legislativas; isto na medida em que, o PSD e o já reduzido CDS, se quiserem ter algum papel como oposição terão que negociar, em muitos concelhos e a nível nacional nas eleições gerais, acordos com o Chega. Mas é reconhecido, entretanto, que o Partido de Ventura terá agora, para ser um partido credível de direita nacional e popular, que se apresentar de modo mais construtivo – deixar de ser um partido de protesto e esclarecendo bem alguns pontos do seu ideário e programa. Sobretudo demonstrando claramente, no seguimento das palavras dos seus dirigentes, que não é um partido xenófobo e muito menos racista. Porque isso seria ir contra a tradição e a identidade portuguesa e lusófona.