“Quero regressar ao futebol angolano para conquistar títulos”

“Quero regressar ao futebol angolano para conquistar títulos”

Sem clube desde o ano passado, Sérgio Traguil, de nacionalidade portuguesa, em 2017, esteve ao serviço do Santa Rita de Cássia do Uíge, mas que chegaria a mudar-se em 2018 para treinar o Kabuscorp do Palanca. Em entrevista a OPAÍS, via WhatsApp, Sérgio Traguil, de 40 anos, aborda questões ‘candentes’ do futebol angolano, bem como os projectos que tem em carteira

Que projectos tem em carteira para este ano?

Pretendo regressar ao Girabola, Campeonato Nacional de futebol da primeira divisão, para tentar ganhar qualquer coisa, ou seja, títulos e voltar a ser feliz. Quero deixar a minha marca no futebol angolano.

Já chegou a ser contactado este ano para orientar um clube em Angola?

Prefiro não especificar. Vou dizer apenas que tenho boas relações com dirigentes de vários clubes. Aliás, o segredo é a alma do negócio como se costuma dizer.

Apesar da Covid-19, qual é a análise que faz do estado actual do futebol angolano?

Dos jogos que tenho visto, o destaque vai claramente para o fortíssimo plantel do Petro de Luanda. É, sem dúvida, o maior candidato à conquista do Girabola 2020/2021. O 1º de Agosto ainda é uma incógnita, porque pareceme mais fraco comparativamente aos anos passados.

Há corrupção no Girabola? Já chegou a ser corrompido?

É um assunto sensível. O futebol, por vezes, tem coisas estranhas. Mas, é um assunto que não cabe a mim comentar. Deixo isso para os comentadores.

O que mais lhe deixa triste no futebol angolano?

Muita coisa. Sobretudo a falta de investimento na formação, infra-estruturas, bem como de um marketing mais forte que possa colocar o futebol angolano em outro patamar.

Concorda que os jogadores têm problemas de base?

Muitos vêm de contextos difíceis, famílias pobres e sem apoios. Não é fácil terem maturidade emocional nem sequer estrutura mental para lidarem com a alta competição. Muitas vezes vão se perdendo grandes talentos por não saberem lidar com a pressão, bem como o insucesso momentâneo.

Que opinião tem sobre os presidentes que têm tido interferência no trabalho dos treinadores?

Penso que quando se contrata uma equipa técnica tem de haver confiança no trabalho, na metodologia, na identidade que essa equipa irá trazer. Cada um deve estar no seu devido lugar. Deve haver apoio mútuo e, acima de tudo, respeito.

Concorda com a ideia de que os clubes angolanos são devedores?

Não posso generalizar. Há os de primeira linha que cumprem sempre com os contratos. Mas, há aqueles que andam consoante a direcção do vento, seja o que Deus quiser. Por isso, existe o bom e o mau em qualquer lado. Eu também trabalhei na Arábia Saudita num país riquíssimo e falharam com os salários. Ainda bem que surgiu a Associação Nacional de Futebolistas Angolanos (ANFA). Acredito que esta associação vem, de certa forma, ajudar os jogadores a não terem receio de denunciar as situações, ou seja, os clubes que não honram com os contratos.

É defensor de que é necessário haver uma liga profissional de clubes em Angola?

Sem dúvida, uma vez que isso seria evolução no futebol angolano.

Qual é a análise que faz da evolução dos atletas angolanos que actuam na Europa?

Gelson Dala está muito bem. Tem vindo a ser importante no Rio Ave, em Portugal. Mas, existem outros jogadores a aparecer cada vez mais no panorama Europeu. Angola tem demasiado talento. O Girabola deve ser mais potenciado. Há muito potencial para ser explorado no futebol angolano. Existem muitos jogadores que com as oportunidades certas conseguem, com toda a certeza, fazer algo no futebol europeu e não só.

Concorda com a opinião de que Portugal não é o lugar certo para que os jogadores angolanos possam evoluir?

Não penso dessa maneira. Não acho que uma coisa esteja ligada a outra. Tem de haver uma melhor preparação para o futebol europeu, uma mudança de mentalidade, mais ambição.

Que opinião tem sobre a qualidade dos treinadores angolanos?

Cada um tem o seu próprio talento. Penso que alguns técnicos já têm provas dadas. Outros só querem aparecer. Acho que alguns treinadores têm de estudar mais. Precisam de ter vontade de evoluir. Mas, há bons treinadores em Angola.

É seu sonho treinar os Palancas Negras?

Não! Nem sequer estou a pensar nisso. Acho que existem outros treinadores em Angola talhados para esta situação. Eu sou treinador de competição diária, pressão diária, superação diária, sou viciado em competição. Por mim jogava todos os dias. No máximo aceitaria as seleções jovens onde se pode trabalhar de outra forma.

Quais são os obstáculos que enfrentou quando trabalho em Angola?

Sou de opinião de que os treinadores emigrantes são bem recebidos em solo angolano. Pode haver uma ou outra questão de patriotismo, nacionalismo, mas acontece em quase todo o lado.