Médico angolano condecorado pelo combate à Covid-19 no Brasil

Médico angolano condecorado pelo combate à Covid-19 no Brasil

O médico angolano João Wilson da Rocha, de 28 anos, foi condecorado recentemente pelo comité de Crise do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), no Brasil, com certificado de Honra ao Mérito no combate à Covid-19. No documento, a direcção do hospital não só reconhece como “agradece a extraordinária dedicação, compromisso e competência no combate à pandemia que assola o mundo”, em particular aquele país latino-americano

João da Rocha considera o reconhecimento, cuja condecoração aconteceu na Quinta-feira, 28, um sinal de valorização do trabalho que tem feito na unidade sanitária em que está destacado.

O jovem formado pela faculdade de medicina da Universidade Estadual de Belga, na Rússia, através de uma bolsa atribuída pelo Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudo (INAGBE), entre 2010 a 2017, afirma que desempenhou as suas tarefas sem esperar receber algum certificado ou alguma coisa.

“Nós fizemos sempre por amor à medicina. Eu sinto que nasci para ser médico. Alguns colegas de outras especialidades não aceitaram ir na linha da frente, mas nós doamo-nos porque é isso que sabemos fazer”, confidenciou a OPAÍS.

Recordando algumas das peripécias por que passou aquando do surgimento da doença no Brasil, confessou que foi difícil estar longe da família e, para agudizar ainda mais a situação, ficaram muitos dias sem falar porque sempre que telefonavam estavam a trabalhar e não os podia atender.

Os profissionais ficavam dois dias no Hospital das Clínicas, afecto à USP, e muitos não conseguiam regressar à casa porque viviam com os pais e avôs, sendo que fazem parte dos grupos de riscos.

“Eu passei noites no hospital. Muitas vezes a dormir no chão, num canto e muitos colegas a adoeceram com a mesma patologia, colegas meu foram parar a UTI e foi muito triste para nós, o que nos desanimou. Eu vi colegas entubados com a mesma doença”, lamentou.

O profissional da saúde dedica o certificado a todo o profissional de saúde angolano e não só que está na linha da frente do combate à Covid-19, em especial aos médicos da clínica Girassol porque é por ela que se encontra no Brasil.

O médico afirmou que, no princípio, foi bem complicado porque estavam a lidar com um desconhecido: o SARS-COV-2. Um vírus que provocou uma doença da qual nada se sabia. Os primeiros casos de Covid-19 do Brasil começaram a aparecer no Carnaval de 2020, em Fevereiro.

O hospital das clínicas, por ser considerado de excelência, tornou- se o centro de referência para o tratamento da Covid-19 em São Paulo. Segundo o médico, a maioria dos casos graves eram todos encaminhados para o hospital em que trabalha e os profissionais tiveram que se redobrar muito. “O hospital chegou a ter 900 leitos de enfermaria só para pacientes com Covid e 300 leitos na UTI. Então, todos nós, das especialidades clínicas e não só, fomos remanejados e trabalhar para a UTI. Ficamos lá por muito tempo”, afirmou.

Atraído pelo Brasil pela paixão em oncologia

João da Rocha conta que foi parar ao Brasil através da sua paixão pelo serviço de oncologia. Algo que ganhou maior relevância na sua carreira profissional, durante um curto espaço de tempo que trabalhou como médico voluntariado na área de oncologia clínica do Instituto Angolano de Controlo do Câncer.

A relação com essa instituição terminou depois de ter sido apto no processo de selecção de quadro na Clínica Girassol, porém, foi destacado na área de oncologia desta instituição. Para melhor satisfazer as necessidades neste domínio, a direcção da Girassol optou por lhe enviar à Universidade de São Paulo, no Brasil, para fazer algumas especialidades médicas que não há em Angola, como a oncologia clínica.

O médico disse ainda que antes de fazer esta especialização, que é uma subespecialidade, terá de fazer uma outra especialidade em medicina interna, que levará dois anos.

“Eu sou médico da clínica Girassol. Estou no Brasil pela Clínica Girassol, ou seja, pelo Governo angolano, para a gente aprender e regressar ao país e dar o nosso máximo”, garantiu o jovem que diz residir oficialmente no bairro Neves Bendinha, em Luanda, local em que nasceu.

João da Rocha disse que, quando viajou, no princípio de 2019, ainda não tinha Covid-19 na China, nem no mundo. “Estou aqui a fazer a minha especialidade médica, ou seja, a minha residência médica em oncologia clínica, por conta do convénio dos governos”, disse.

O jovem médico confessou que, no princípio, não foi fácil se adaptar naquela que é uma das maiores unidades hospitalares do Brasil, um dos maiores centros de pesquisa do mundo e na instituição de ensino que está entre as 100 melhores universidades do mundo.