João de Carvalho: Um “combatente” resiliente da venda de livros em Luanda

João de Carvalho: Um “combatente” resiliente da venda de livros em Luanda

Nem o advento da Internet o move da venda dos livros. João António de Carvalho é um dos mais emblemáticos alfarrabistas de Luanda. Soma mais de 30 anos neste ofício e, pela primeira vez, foi reconhecido pelo seu trabalho pelo Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente. Em entrevista a esse jornal, o ancião fala do seu negócio, do estado da literatura angolana, assim como dos livros que pretende publicar, sendo um poemário e o outro de enigmas/adivinhas, a exemplo desta: Antes, em Luanda, eram 10. Agora são mais de 20. O que são?

Como nasce o interesse pelos livros não só como mote para leitura, mas como um negócio?

Não sei dizer o dia e mês em concreto, mas posso assegurar que foi na década de 1980. Numa das minhas visitas à livraria Lello, encontrei os livros expostos, mas, para o meu espanto, havia outros numa prateleira fechada. Fui ter com o gerente da época, o senhor Ricardo Manuel, perguntei-lhe por que razão alguns estavam expostos para acesso imediato, enquanto os outros estavam na vitrina fechados.

E qual foi a resposta?

Disse-me que eram os mais caros e alguns deles não teriam reedições, ou seja, eram inéditos. E abaixo dos livros estava a frase: “Livros guardados, dinheiro amealhado”. Dada essa informação, depois de ter reflectido sobre ela, suscitou-me o interesse em entrar para o negócio dos livros, tornando-me alfarrabista.

Onde é que começa depois dessa “luz” face aos livros guardados, dinheiro amealhado?

Comecei a fazer as vendas nas imediações do bairro Terra Nova, no interior de uma loja, numa altura em que o patrão estava a ter alguns problemas financeiros, não estava a cumprir com os encargos salariais, então pedi a sua autorização para que introduzisse artigos meus para os poder comercializar, ele concordou e fui vendendo.

Nesse caso era funcionário da loja e porque os seus salários não estavam a ser pagos de forma regular propôs vender os seus livros precisamente no seu local de trabalho. Foi muita ousadia…

Precisamente. Mas depois notei que estava sem muita saída por estar num espaço fechado. A parte de cima era uma residência e os peões dificilmente se davam conta que havia um estabelecimento comercial além dos habitués, então aos Sábados, dias dedicados ao asseio do estabelecimento, preferia sair com os livros e ia deambulando pela cidade. Fixei-me junto ao antigo Cine Ngola e lá expus as primeiras obras, que, de imediato, apareceu um cliente que comprou quase todas as obras que havia exposto e, a partir daí, houve mais motivação e não mais parei.

Os primeiros livros que vendeu já os tinha em stock ou foi comprando para depois os revender?

Alguns deles já os tinha em casa. E, como já conhecia alguns autores procurados, assim como editoras do mercado nacional e estrangeiro, ficou muito mais facilitado e as minhas buscas eram precisamente ao encontro da procura.

Qual era o seu objectivo quando começou a coleccionar livros para si e não para os vender?

Era muito dedicado à leitura. Tinha-os para esse efeito, para fazer investigações.

O que é que fazia antes de se dedicar à venda de livros?

Trabalhava com um senhor na Empresa Nacional de Lotarias de Angola, registava matrizes de Totobola e Totoloto. A casa estava sem material de papelaria nem livraria, então tive de fazer o pedido ao patrão como já havia frisado para que introduzisse o meu material na loja para os revender.

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