Ruptura em passagem hidráulica expõe fragilidade de obras públicas em Benguela

Ruptura em passagem hidráulica expõe fragilidade de obras públicas em Benguela

A ruptura de uma passagem hidráulica na zona de acesso ao Mercado 4 de Abril, município sede de Benguela, dividindo a estrada em duas, com a vala que se criou, impedindo a circulação de pessoas e bens está a levantar suspeitas sobre a qualidade das obras públicas erguidas em Benguela

A problemática que se criou à volta da cedência e consequente desabamento de uma passagem hidráulica, numa zona periurbana, bairro 4 de Abril, tem preocupado cidadãos, especialistas, governo e a oposição.

Os constrangimentos denunciados, para além do perigo que a vala que separou a estrada representa, tanto para habitantes, quanto para condutores circulantes, prendem-se também à limitação no transporte de mercadorias de e para o mercado.

Após analisar a relevância da infra-estrutura que ruiu, o arquitecto Felisberto Amado fez uma incursão sobre os factores que podem contribuir para desfechos do género, bem como que trabalho se faz para prevenir.

No seu entender, a ruptura se deve ao facto de a tubagem usada no subterrâneo para escoamento de água, atravessando, perpendicularmente, a estrada, ser constituída por plástico, e é primordial que seja feito um reforço protector à sua volta.

Essa estrutura protectora, envolvendo a tubagem na totalidade, construída em betão, serve para impedir danos “de compressão” derivados do peso que circula à superfície, na estrada, evitando-se assim a ruptura, como sucedeu na Segunda-feira, 8.

Por isso, o arquitecto Felisberto diz estar perante uma obra que sofreu “erro de construção e falta de manutenção”, aconselhando a quem responde por essa alçada, que considere o peso dos camiões nas próximas obras.

Director provincial das infra-estruturas discorda

O engenheiro Adilson Dellany, director provincial da área, em resposta à necessidade de uso da referida protecção em betão, à toda a volta da tubagem subterrânea naquela zona, por baixo da estrada, disse não concordar.

Formado em engenharia civil, defendeu que só é necessária “protecção mecânica”, reforço protector em betão, nos casos em que a tubagem esteja a menos de 1 metro de profundidade e, “este caso cumpre os requisitos mínimos”.

Declarando ser uma situação diferente, Adilson Dellany vê como desnecessária a medida considerada pelo arquitecto Felisberto Amado como imperativa. Para Adilson Dellany, a camada de terra por cima da tubagem e, depois, o asfalto, são suficientes.

Perante isto, o arquitecto Felisberto reiterou o seu parecer, acrescentando que, a infra-estrutura foi construída para suportar anos de “esforços de compressão provocada pela carga dos camiões”, sendo impensável que tenha somente terra como protecção.

Pois que, adicionou, “nesta passagem hidráulica, não se fez a protecção nas laterais, nem por cima, em betão. A camada de terra compactada e o asfalto não tiveram resistência suficiente, o que fez com que a tubagem se deformasse”.

Contrariando, o engenheiro Adilson disse que o desabamento não ocorreu por má qualidade da execução da obra. Terá sucedido por fogo posto pela população, que acumulando lixo à entrada da passagem, queimou-o para a desbloquear.

“O incêndio gerou uma onda de calor elevada que se transferiu para o interior da passagem hidráulica. Sendo esta de material plástico, gerou um aquecimento e diminuiu a resistência (derreteu)”, frisou.

Com isso, segundo disse, a passagem hidráulica cedeu com o peso do solo e do tapete asfáltico.

Por sua vez, o arquitecto Felisberto voltou a discordar, enunciando que, diante destas evidências, os outros argumentos não colhem.

“A justificação do fogo é um argumento falso para o caso em concreto. Aqui, o que esteve em causa foi de facto um erro grosseiro, de projecto e de construção, e um péssimo serviço de fiscalização”, frisou, aconselhando manutenção trimestral, principalmente no início e no fim das chuvas.

Sobre a frequência mínima exigida para limpeza e manutenção, e a real sucedida, o director provincial foi vago na resposta, dizendo que ocorrem sempre que necessário, principalmente junto ao casco urbano, próximo às populações.

Promessa de rápido retorno à normalidade

Adilson Dellany, director provincial das Infra-estruturas e Serviços Técnicos, informou que a Administração Municipal de Benguela (AMB) está encarregue da efectivação das obras de reconstrução e, em princípio, esta situação poderá estar resolvida na próxima semana.

Trata-se de uma infra-estrutura datada de 2014. Relativamente aos custos das novas obras e alternativas para a circulação, disse Quinta-feira última, estar em funcionamento a via secundária sob o comando da AMB. Quanto aos custos, estimou-os entre 1.200.000,00 e 1.500.000,00 Akz.

Já Zeferino Kavingwa, em declarações ao jornal OPAÍS, representando a CASA-CE e o Bloco Democrático, alegou ser outro exemplo de obras mal feitas pelo governo, suspeitando do orçamento dirigido e do aplicado.

Para si, constitui “grande preocupação a forma como se gastam os dinheiros”, pois, segundo acusou, “são obras de pouca qualidade”, que, por consequência, duram “pouco tempo” e, “com certeza, o orçamento foi de triliões”.

Kavingwa lamentou a dificuldade gerada aos comerciantes, prevendo o incremento, se chover porque com o entulho na passagem de água, num bairro que tende a alagar-se, o cenário será pior.

O jornal OPAÍS questionou o valor orçamental da obra tanto ao vice-governador para a Área Técnica e Infra-estruturas, Leopoldo Muhongo, quanto ao director provincial das Infra-estruturas e Serviços Técnicos, Adilson Dellany, mas sem sucesso. Ambos não o concederam.