“A rentabilidade da União dos Escritores depende da criatividade da sua gestão”

“A rentabilidade da União dos Escritores depende da criatividade da sua gestão”

O antigo secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, Carmo Neto, em entrevista a OPAÍS, afirmou que, para que haja rentabilidade na “casa das letras”, é necessário criatividade por parte da comissão gestora da instituição

Num momento em que os funcionários da União dos Escritores Angolanos (UEA) voltam a reclamar por mais de seis meses sem salários, porque não recebem qualquer dinheiro do Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente, aliado ao facto de o seu responsável máximo ter anunciado no passado a possibilidade do encerramento de portas, caso a questão financeira não ficasse resolvida.

Por essa razão e, depois de a notícia ter despoletado várias reacções no seio da classe, o jornal OPAÍS conversou com o também escritor Carmo Neto, de modo a procurar perceber algumas questões inerentes ao pouco dinamismo em que vive a UEA.

Por que razão a União dos Escritores Angolanos continua a debater- se com problemas de salários?

Esse é um problema que tem que ver com o próprio Orçamento Geral do Estado, porque o que vai para a União dos Escritores Angolanos é muito pouco e, mesmo na minha gestão, tivemos muitos problemas de salários, por isso tive que recorrer a outros meios. Até à minha saída, o Ministério da Cultura não tinha um orçamento que chegasse para as despesas correntes da União dos Escritores.

Por conta dos problemas financeiros, há, realmente, a possibilidade da União dos Escritores Angolanos vir a fechar as portas?

Não posso, de forma peremptória, afirmar que sim ou que não, mesmo porque estou distanciado das actividades da UEA há quase dois anos. Sei que estão com algumas dificuldades semelhantes ao que o país hoje vive, como é o caso da falta de verbas suficientes para a própria instituição funcionar, embora sejam questões com as quais também tivemos que conflituar e encontrar soluções adequadas e, por conseguinte, fazer com que a União dos Escritores Angolanos fosse funcional em todos os seus aspectos, sobretudo no que diz respeito à edição de livros, promoção de escritores, intercâmbio entre os escritores de diversas nacionalidades e promovemos a nossa imagem interna e externa. Mas, em virtude da grande importância que tem a União dos Escritores Angolanos para o país, não creio que isso possa vir a acontecer algum dia.

Uma vez que, antes do término do seu mandato, temos informação segundo a qual havia deixado três meses de salários adiantados e hoje os funcionários reclamam por quase um ano em falta, o que é que fazia que não está a ser feito agora?

O problema que se coloca às instituições, semelhantes à UEA, é que a sua dinâmica depende dos seus actores, quer dizer, os responsáveis das instituições. Mesmo na vigência do meu mandato, tive problemas financeiros oriundos do Ministério da Cultura, como sabem, não cabimentava, por si só, o pagamento de salários dos trabalhadores, nem dos outros elementos que nós financiávamos.

Como fez para conseguir pagar?

Em concreto, tivemos que, de forma suplementar, criar meios para conseguirmos alguns fundos que permitissem o regular pagamento dos salários dos funcionários.

Como por exemplo?

A título de exemplo, nós conseguimos, a custo zero, edificar um jango, acredito que vocês conhecem, que na interpretação, feita sem prévio contacto a minha pessoa, tiraram-se ilações muito erradas, porque foi, de facto, um velho cliente meu, enquanto advogado, que aceitou o desafio de construir em terreno alheio, com a perspectiva de ter espaço temporal para reaver o seu investimento e deixá- lo como propriedade da União, e ele como inquilino de preferência.

Isso cumpriu-se de tal forma que, mesmo a descontar no valor do seu investimento, havia um residual para dar à União, e isso ajudou muito para a rentabilidade da Instituição. Outra fonte era a Somague, que ocupava um espaço, onde ergueram escritórios, e pagavam renda por isso. A livraria que tínhamos nas instalações também pagava.

Então tudo isso dava-nos para fazermos uma fixação de valores, sobretudo para privilegiar salários. Mas deixa-me dizer que já nesta altura se registaram baixas significativas sobre os valores a que a União tinha direito, e foram estas relações que nós criamos com terceiras instituições que faziam com que os salários não tivessem algum problema de estabilidade.

Visto que conseguiu garantir o que se reclama agora, já terá havido alguma conversa entre os responsáveis das gestões anterior, a sua, e a actual, de modo a trocarem algumas ideias inerentes à rentabilidade da UEA?

É preciso deixar claro que, mesmo na minha gestão, tivemos problemas de salários, porque o ministério não dava o devido financiamento, até encontrarmos meios de resolvermos esses problemas. Continuo sendo membro da União, mas estou distanciado há dois anos, como fiz referência. Estou aberto ao diálogo, caso venha a ser convidado.

Que soluções poderia sugerir para a rentabilidade da UEA?

Felizmente não tive muita resistência para conseguir, tanto que até podia sair um jornal cultural pela União, no tempo em que lá estava. É preciso pensar cada vez mais na autonomia financeira da União dos Escritores. Tal como também havia apresentado o projecto de construir um edifício da União, onde ficaríamos com três andares e o investidor ficaria com quatro, até o final através do tempo acordado, o imóvel total depois ficaria com a União. É assim que funciona a Academia das Letras do Brasil e França. Eu não estive a buscar nada de novidade. Porém, fomos mal entendidos e decidi largar. Porque a questão da rentabilidade da União só precisa de autonomia, e tudo não vai além de alguma criatividade e inovação, por parte da gestão da instituição.

Valdimiro Graciano