É de hoje…Frente Comum

É de hoje…Frente Comum

Não há dúvidas que o panorama político angolano fica agitado com a entrada em cena de um suposto conglomerado de partidos que pretende fazer frente ao MPLA, o partido no poder que dirige Angola desde a sua independência em 1975. Isto é, há 45 anos ininterruptos.

O surgimento de uma Frente Comum, como se pretendeu apodar numa iniciativa que teve à cabeça inicialmente o líder da UNITA, Adalberto da Costa Júnior, dá-se num momento particular do país, em que o principal adversário desta iniciativa política, o MPLA, encontra-se acossado por uma crise com fortes implicações na vida política, económica e social.

Com um arranque positivo no primeiro mandato, em que conseguiu reverter, de algum modo, as contas públicas, o reinado de João Lourenço arrisca- se a ser confrontado, caso ocorra, com um grupo de opositores supostamente revestidos num objectivo comum para o desalojar, embora se reconheça desde já que não seja uma tarefa fácil ou ao alcance de ‘comuns mortais’.

Na verdade, a Covid ainda parece ser o principal adversário do MPLA, por ter sido ela que travou a implementação de projectos.

Claro que uma oposição forte exigirá do partido no poder uma postura e a não ocorrência de penalties políticos, alguns até evitáveis, como casos de malbaratamento de verbas e falta de seriedade em determinados projectos, a julgar pela postura sacralizada de muitos gestores públicos.

Uma Frente Comum ao MPLA tende a ser um desafio maior para os componentes de tal iniciativa, tendo em conta os interesses díspares que acabam sempre por fazer da oposição um corpo já dilacerado e repartido, que nem o mais profissional dos cirurgiões conseguiria recompor os pedaços.

Por mais que se cantem hossanas, sustentada numa hipotética colocação dos interesses de Angola em primeiro lugar, uma aliança entre a UNITA de Adalberto Costa Júnior e o não reconhecido PRA-JA de Chivukuvuku tende a ser vista como contra-natura.

Não se trata de um mero exercício de demagogia, mas sim um propósito que, longe dos interesses do sucessor de Isaías Samakuva, dependerá também do agreemment da ala mais conservadora da UNITA, que ainda não encarou com bons olhos a saída do jovem turco.

Quem se recorda dos pronunciamentos do secretário- geral, Álvaro Chikwamanga, quando avaliava o hipotético regresso deste, exigindo explicações, concluíra que há ressentimentos ainda presentes que poderão definir sobremaneira o futuro de uma possível convivência em comunhão de adquiridos.

É que em caso de uma ida em conjunto às urnas, por se saber ficará a composição de uma lista única, em que sejam salvaguardados ao mesmo tempo os interesses da UNITA e de Chivukuvuku, que, se entenda, equivale também a inclusão do mesmo grupo de apoiantes que o acompanharam na CASA-CE. A manifestação de vontade feita ontem tem o lado positivo de vir a pressionar os camaradas a se reencontrarem. Porém, esconde do mesmo modo um dilema que vai precisar muito mais do que o pseudo interesse nacional: a incompatibilização das ideologias e até mesmo egos de alguns.

O Bloco Democrático é um mal menor na equação, sendo mais um partido com uma missão própria que não passa pelo poder. Há muito que anda desenhada a possível aceitação nas suas hostes de um líder que lhes permita resistir ao próximo pleito, longe da coligação CASA-CE, liderada agora por Manuel Fernandes, cuja escolha não apadrinharam.