Falta de financiamento “mata” projecto de produção de adubo a partir do lixo

Falta de financiamento “mata” projecto de produção de adubo a partir do lixo

O projecto que produz fertilizantes agrícolas orgânicos a partir do lixo aguarda, desde 2017, financiamento para montagem de uma indústria no Cunene. O engenheiro agrónomo, Bernardo Caritoco, afirma que a sua concretização seria uma solução para a eliminação de resíduos sólidos nas cidades

Desde 2017 a funcionar de forma artesanal, o projecto já produziu mais de 300 toneladas de adubo orgânico, 120 dos quais nos últimos seis meses do ano passado, distribuídos gratuitamente às pequenas cooperativas agrícolas.

Bernardo Caritoco disse que todas as promessas de financiamento, tanto institucionais como privadas, que tinham como objectivo a montagem de uma mini-indústria no Cunene para se sair da fase artesanal para a industrialização, não foram concretizadas.

O interlocutor disse que vários responsáveis que passaram pelo Governo do Cunene prometeram apoiar o projecto, tendo citado os malogrados Didalelwa e Kundy Paihama, assim como a petrolífera nacional Sonangol.

Caritoco esperava um input da Agência Nacional de Resíduos (afecto ao Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente) e do Ministério da Agricultura e Pescas que, em 2019, por intermédio do seu actual titular, chegou a visitar o projecto.

O engenheiro agrónomo referiu que tinha sido garantido também um financiamento do Programa de Apoio ao Crédito (PAC) de cerca de 200 milhões de Kwanzas que até hoje não se concretiza.

Disse que a fórmula científica do seu adubo está enquadrada nos parâmetros internacionais, com os resultados aprovados pelos laboratórios da Namíbia, África do Sul e do laboratório do Ministério da Agricultura e Pescas, em Luanda, tendo sido distinguido na Alemanha com um certificado de mérito e medalha de ouro.

“Há muita gente à procura do nosso adubo e já enviamos a 10 províncias do país com destaque para fazendas do Cunene, Huíla, Namibe, Benguela, Cuanza-Sul e Luanda, mas neste momento estamos parados porque o processo de produção é muito moroso e cansativo”, referiu.

Diminuição do lixo

Formado em engenharia agropecuária, Bernardo Caritoco, disse que este tipo de adubo é feito como uma solução para a diminuição dos resíduos sólidos no país, uma das preocupações actuais em muitas cidades do país, além de não apresentar perigo ou efeitos colaterais para o organismo humano e para os solos.

“Se o projecto fosse bem aproveitado, com o muito lixo que temos amontoado no país, não teríamos tanta necessidade de importação adubos químicos. Nós usamos desde o papelão e os metais, sendo a única excepção o plástico”, disse.

Caritoco disse que se está a perder também a oportunidade de consciencializar a população sobre as formas de separação do lixo que, devia ser uma forma de promover o empreendedorismo e auto emprego.

Aliás, os 25 jovens com os quais trabalha encontram-se, actualmente, no desemprego e só são convocados, eventualmente, sempre que há solicitação de adubo por parte de empresas para trabalhos no momento.

Para além do lixo, o adubo é feito com matéria de origem vegetal ou animal como esterco, palhas, cascas e restos de composto em estágio de decomposição.

“Os nossos solos são, na sua maioria, virgens e não necessitam de adopção de muitos químicos. Exemplo disso é o volume da nossa produção que vem maioritariamente dos pequenos agricultores familiares, pequenas fazendas ou hortas”, disse.